Prêmio Braulio Tavares 2008, contos de ficção-científica
Nos eventos literários que acompanho e no papo na mesa dos barzinhos (muitas vezes mais interessante), é comum o pensamento de que a literatura está mudando, não se sabe muito bem para onde. Estamos no meio de um óbvio processo de transição. Geralmente o papo surge quando se fala do fetiche do papel. Será que a literatura que importa é só a publicada? Não há nada de bom na Internet e tudo que é publicado é bom? O livro continuará sendo de papel para sempre ou cederá seu lugar para o baratíssimo pdf? O mercado de audiobooks que cresce nos EUA terá algum reflexo no Brasil? Essa é uma conversa que para mim soa velha, desculpe se para você também, mas é importante repeti-la porque ainda há quem brade contra essa coisa entranha chamada Internet. Já li artigos jornalísticos falando mal da Wikipédia e soube de uma professora que obrigou os alunos a fazerem de próprio punho para evitar o famigerado copy e paste possibilitado pelos computadores. São sinais evidentes de um sentimento de “estamos perdidos”. De repente o colecionador de Barsas passou a ter chances de fazer um bom trabalho que são equivalentes à de qualquer pessoa conectada à Internet. Não é mais uma questão de quem detém o conhecimento, mas sim de quem sabe procurá-lo, peneirá-lo e interpretá-lo.
Na literatura a questão primordial ainda são os blogs. Então você também é escritor? Droga! Mas esse era o meu diferencial intelectual. Preciso arrumar outro jeito de provar minha superioridade. E lá estou em papel. Publicado. Você, só de blog não é nada. Mas não existe só blog. Hum. Existem revistas virtuais, e-zines, com um editor por trás. Além disso, o Paulo Roberto Pires tem blog, o Charles Stross tem blog, o Sergio Rodrigues também. Se eles publicarem contos nesse espaço serão menos literatura do que no papel? Existem editoras on demand que imprimem seu cartão de visita literário de trezentas e poucas páginas com capa colorida. Droga! Mas eu, eu… eu sou publicado. Eu até tenho um blog, mas o que faço ali não é literatura não, veja bem, meu amigo, é só uma coisinha aqui que escrevo para passar o tempo, meu trabalho mesmo está no estoque de uma grande editora, encalhado, mas o que vale é a palavra grande do ladinho de editora. Mas uma editora pequena recém criada ganhou o prêmio Açorianos. E então? E os conceitos continuam a se mesclar, cada um tentando defender seu sucesso através de n fatores que geralmente não passam pela qualidade do texto. A qualidade. Às vezes e só às vezes a gente se esquece dela.
Esse lero todo para dizer que não sei quando começou a transição, mas sei que de agora em diante estaremos sempre dentro dela. As mudanças acontecendo rapidamente e as novidades alterando o rumo das mudanças. Não há um final a ser visto da janela na ponta dos pés. O fato é que o virtual e o real colidiram, se misturaram. A parede cheia de CDs e livros virou um HD cheio de mp3 e pdf. O virtual é além de tudo um imenso banco de dados e a literatura presente nele deve ser avaliada com os mesmos pesos e medidas que a literatura em papel. Afinal, Borges lido em um site não vale menos do que Borges editado.
Por sorte, nem todo mundo se desespera aumentando a cerca para proteger seu território. Não só há produção literária como também estímulo para que autores ainda inéditos em papel se aventurem no mundo da escrita. Uma das iniciativas mais interessantes nasceu recentemente no Orkut na comunidade de ficção científica e foi batizada de Prêmio Bráulio Tavares. Sob a batuta de Ana Cristina Rodrigues, a atual presidenta do Clube de Leitores de Ficção Científica, foi organizado um concurso em que os membros da comunidade enviaram contos sob pseudônimos e votaram seguindo regras, elegendo assim os vencedores. Os melhores contos da edição anterior saem em 2009 em papel, em um intercâmbio que devia ser mais explorado pelas editoras.
O Prêmio Braulio Tavares 2008 contou com os votos da comunidade e também de jurados escolhidos pela Ana Cristina, entre eles editores e pessoas importantes no cenário literário da ficção científica brasileira. Foram vinte e um contos e doze mini-contos inscritos. Comento abaixo os cinco primeiros lugares do concurso de contos, que também incluem os 3 eleitos dos jurados.
Muito depois da primeira bomba, de Leonardo Lemos, tratou de um assunto bastante explorado na ficção-científica, mas soube fazer a sua graça. Aproveitando a explosão da primeira bomba atômica, Leonardo situa o leitor no deserto, passa o encanto dos cientistas e a sensação de deslumbramento anterior aos desdobramentos bélicos reais. Interessante que ao quebrar a ambiência do passado citando as mortes que viriam pela frente, o autor faz um jogo com uma perspectiva tomada do futuro que tem tudo a ver com a história.
“Dias mais tarde, o mesmo diretor declararia à imprensa que após a explosão, veio-lhe um trecho do Bhagavad Gita à mente: Agora sou a morte, destruidora de mundos. Foi mesmo. Para 150.000 pessoas após alguns dias, para 340.000 pessoas após alguns anos e somente o futuro poderia dizer quantas pessoas mais morreriam depois”.
Depois disso, o leitor é apresentado a Bernard Brewer. Responsável por estudar as propriedades do plutônio, ele recebe a missão de analisar um fragmento de rocha contendo um material vítreo estranho achado na região da explosão. O conto segue seu ponto de vista, se apropriando de vocabulário analítico, com direito a superfície porosa, estereomicroscópio, caracterização mineralógica e tudo mais. Aos poucos se percebe que a história não girará em torno da bomba e de suas proporções assombrosas, mas sim daquele corpúsculo minúsculo, ironicamente muito mais importante para o pesquisador e para a narrativa. É projeto para Discovery Channel nenhum colocar defeito.
“Assemelhava-se a vidro derretido, translúcido e esverdeado, tendo provavelmente se formado através da fusão de elementos do solo do deserto, causada pela elevadíssima temperatura da explosão. A olho nu, os fragmentos pareciam placas, com uma superfície lisa e a outra altamente irregular”.
Fora os dois primeiros parágrafos truncados, o texto flui bem até o fim e consegue retratar de maneira crível a sensação do profissional da área de pesquisa diante do inusitado.
Marcelo Augusto Galvão, autor de Vida e morte do último astro pornô, escolheu um caminho diferente, usando de modo preciso o tempo peculiar do humor. Sua história brinca com a indústria de entretenimento e de certa maneira potencializa o atual cenário de celebridades baratas, levando-o às últimas conseqüências. Esqueça Laranja Mecânica, Tubarão ou Acossado, os clássicos do cinema são filmes pornôs, e seus participantes são idolatrados.
A introdução é um trecho de A história informal da pornografia do século XX:
“(…) A Era de Ouro do Cinema Pornô é o período compreendido entre o final dos anos 60 e começo dos 80 em que o pornô se consolidou como um gênero cinematográfico legítimo. Películas como ‘Garganta Profunda’ (1972), ‘O Diabo na Carne de Miss Jones’ (1973) e ‘A Décima Musa de Apolo’ (1976) tinham roteiros e atuações convincentes – algo inimaginável hoje em dia – e eram resenhadas nos cadernos culturais dos grandes jornais, acabando por atrair um público sofisticado bem diferente das figuras que freqüentavam as sórdidas salas especializadas em ‘filmes de sacanagem’”.
Como indica o título, o conto narra a história de Nick Richards, ou Nick Dick, no fundo do poço, já na sombra de seus áureos tempos. Quando oferecem a ele um papel que pode recolocar sua carreira nos eixos, Nick se vê em uma situação limite, perturbadora até para ele, e graças a uma seqüência de incidentes, acaba se tornando um grande herói.
“Betty Boobie esteve aqui hoje. Quase não a reconheci, estava sem maquiagem, usando um vestido preto que ia das canelas até o pescoço, cobrindo aqueles peitões dela. Disse que encontrou Jesus (…)”.
O forte do conto é brincar descaradamente com a indústria de sexo e os conceitos de arte. A boa e velha discussão sobre a tecnologia diminuindo o número de empregos (alguém se lembra das aulas sobre mecanização da lavoura?) ganha aqui outros contornos, com os robôs ocupando as vagas até dos atores pornôs. Excelente utilização do tempo do humor em benefício da estrutura narrativa.
O homem bicorpóreo, de Hugo Marcel Vera, muda o clima para o uso de psiônicos pelo exército a revoltas separatistas em colônias de Marte. Aí no meio, uma história de contexto político, de como fatos podem ser ocultados do grande público e da mídia. A personagem de maior empatia é Dra. Helena Corelli, responsável pela pesquisa com os psiônicos. A história é contada através de uma conversa dela com o Primeiro Ministro e gira em torno de idéias para resolver as revoltas. Infelizmente, a pessoa mais indicada para acalmar os rebeldes, o governador Cláudio Texeira, sofreu um atentado. O jeito é usar os recursos científicos disponíveis para fazer o povo acreditar que ele continua bem e que é ele quem faz os discursos pela paz. É para Elvis e Osama nenhum botar defeito.
“— Mantemos sua imagem sempre presente na mídia local. Escrevemos seus discursos, que são lidos pelo próprio Governador, e enviamos à imprensa em holofilmes. Evidentemente a imprensa recebe um arquivo onde somente o áudio da voz pertence ao Governador. As imagens do holofilme são animações gráficas em 3-D baseadas em imagens de arquivo. O resultado final é perfeito”.
O mérito da história é conseguir acender a centelha de uma mitologia complexa mesmo com as limitações de tamanho de um conto. Psiônicos são sempre bem-vindos na literatura fantástica e aqui foram bem utilizados. Também vale ressaltar a qualidade da escrita, que não recai no exagero de adjetivos que costuma poluir textos de novos autores.
Já Rodolfo Londero optou por uma brincadeira literária. 500 anos de Edgard Rice Burroughs conta a história do autor do clássico futurista Uma princesa de marte, lido por 10 entre 10 extraterrestres. O conto é narrado por um desses extraterrestres. Ele não se conforma que um clássico possa ter sido escrito por um povo tão atrasado e que curte autores de péssima qualidade como James Joyce e Virginia Woolf. É uma boa inversão de parâmetros que nos lembra do papel da pluralidade do olhar na literatura. Aquela conversa de que parâmetros determinam uma grande obra.
“Ainda me lembro quando Uma princesa de Marte chegou entre nós. Eu tinha apenas 119 anos e as viagens espaciais para a Terra haviam recém iniciadas. Não nos apresentamos imediatamente para os humanos, pois queríamos conhecer sua política e sua cultura antes de qualquer ação. Então, infiltrados, coletávamos tudo que achávamos interessante: aparelhos portáteis, placas de trânsito, dicionários, etc. Até que um dia alguém coletou uma edição de luxo da obra-prima de Burroughs (mais tarde iríamos descobrir, indignados, que os romances do mestre foram impressos originalmente em revistas de papel barato)”.
Não foi um tema que me atraiu tanto, mas também é um texto bem escrito. Do tipo que se lê de uma vez só. O plágio que os extraterrestres tentam fazer de Uma princesa de Marte já vale a leitura dos fãs de ficção-científica.
Para encerrar a resenha, Aguinaldo Peres e O caso Floret.
O conto começa descrevendo o lugar onde está Floret preso. O autor poderia ter se detido um pouco menos nos detalhes técnicos da ambientação e aproveitado melhor essa parte. É só quando Floret vai conversar com o advogado que a história começa para valer. O advogado pede que ele conte tudo que aconteceu no dia do fatídico episódio, nos deixando a par de seu drama.
Floret foi preso por agredir um funcionário no terminal da versão futurista do metrô de São Paulo. Motivo? Burocracia misturada com falhas tecnológicas. Nada de conseguir passar na catraca. Imagine ter que lidar com a agência de vigilância sanitária e um erro fatal do Windows ao mesmo tempo. É mais ou menos por aí.
“Ele acorda com a voz genérica dos sistemas públicos. Um nicho se abre na parede, na bandeja um copo médio de leite e um pequeno de café, saches de açúcar, torradas e um sanduíche frio embalado a vácuo. O homem despeja dois saches no café e o bebe para empurrar o sanduíche insípido garganta a baixo”.
A idéia de Aguinaldo me lembrou a burocracia labiríntica de Kafka em O Processo e foi a história que mais me agradou, talvez por uma questão de comiseração e identificação com o personagem. Quem já teve que subir e descer infinitamente de um andar para outro dentro de algum cartório ou tentou convencer um funcionário público de que não, o CPF não está na lista de documentos solicitados na Internet, sabe do que estou falando. Uma boa história sem final feliz.
Os contos vencedores não foram colocados em um arquivo separado, mas quem se interessar pode baixar o pdf do concurso com todos os inscritos e dar uma olhada. Como estão sob pseudônimo, procure pelo nome do conto. Ficção científica pura.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































