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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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12/01/2009

Lucas Simões

Lucas Simões armou uma individual na Emma Thomas em janeiro de 2009. Uma série de superfícies, e o que ele acha a respeito de superfícies. São espelhos, mapas, fotos. Principalmente mapas.

A gente vê o que está dentro do olho da gente – e pouca coisa mais. No dia, eu andava pensando a respeito da ressurgência de um gótico, entendida por mim como uma tentativa coletiva de lidar com o medo que acompanha a falência das linhas retas do modernismo. Você pinta um híbrido, ou manchas negras, para que o futuro tenha forma. Exista. Monstruoso, será sempre menos apavorante do que não existente, do que sem forma.

lucas simõesNo convite para a exposição, havia uma reprodução de uma padronagem repetitiva e rigorosa, é certo, mas feita à mão. Ou seja, com as pequenas modificações que a serialização, quando humana, produz.

Aí eu pensei: ah, nada mais eficaz do que o delírio de controle que se anuncia como delírio de controle. Continua servindo de arma contra o incontrolável (que é tudo) e, ao mesmo tempo, se defende da acusação de ser delírio de controle, pois é falho. Seria, então, um gótico ao contrário, um anti-gótico e a ele igual.

A meu favor, digo que havia visto uma obra anterior de Lucas Simões, na Baró Cruz (julho de 2007), em que o artista empregava a técnica vetorial. Controle absoluto não importa que hecatombe modificadora se apresente ao desenho. Resiliente ao extremo, o cálculo computadorizado garantirá a sobrevivência da forma original.

Na sala da Emma Thomas, uma surpresa.

Mapas são representações singulares. Assim como fotografias, se apresentam como continentes de um “real”. Assim como espelhos. E o valor desses três tipos de superfície está justamente no sucesso com que consigam convencer da equivalência ao seu “real” correspondente – mesmo se, para tanto, dependam, todos os três, de regras pré-estabelecidas sem as quais a decodificação não se dá.

Lucas Simões faz cortes em seus mapas e levanta as partezinhas cortadas em “orelhas” que se projetam da superfície original; lá atrás há outra, distante alguns centímetros da primeira. Nas fotos, a estratégia é outra mas igual. Há fotos de caras que foram pintadas. Há fotos de caras que foram pintadas. Nas duas frases iguais uma diferença: há caras pintadas que foram fotografadas e há fotos pintadas de caras.

E por falar em linguagem, os títulos das obras – que fazem parte das obras, na lição aprendida dos neoconcretos cariocas – repetem o jogo dos espaços, agora em palavras. O artista dá, a suas rasas superfícies significantes, outras superfícies: uma anterior, lá atrás, visível pelos buracos dos cortes, e mais uma, aérea, que nos inclui, nós que estamos na frente da obra, e que é apontada pelos pedacinhos levantados das “orelhas”.

Já os títulos são: Detrás, depois, clandestino; Verso, reverso, descobrimento; Amnésia; Deslocamentos; Diferença e repetição.

Se o espaço de Lucas Simões parece dizer que a rasa superficialidade da presentificação contemporânea não é bem assim, a titularização de suas obras reforça o aviso dizendo: olha, há um temporalidade a ser levada em conta.

A obra com espelho (uma delas) que ilustra esse artigo problematiza uma parede em branco. Você já ficou por horas olhando para uma parede em branco? Pois é. Nem se tratava de uma superfície nem você estava no presente.

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

Lucas Simões



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