O livro de fantasia urbana Guardiões da Noite saiu na Rússia em 1998, ano da crise financeira russa que teve reflexos no mundo todo. Foi um best-seller na casa de um milhão de cópias só no país. Em 2004, foi adaptado para o cinema e ganhou novo fôlego mundial. Aproveitando a onda de certo jovem mago que virou fenômeno literário, o livro foi traduzido para diversos países. O Brasil não foi um deles. Comprei-o em espanhol, editado pela Plaza Janes. Excelente edição.
O protagonista de Guardiões da Noite é Antón, um mago da Guarda Noturna, por isso o título Guardián de la noche. Ele é um Outro. Assim são chamados os humanos que têm dons mágicos e conseguem entrar nas várias camadas do Crepúsculo (nada a ver com a série vampiresca adolescente) e ver as coisas como realmente são. Quando um Outro é descoberto pelos guardiões, ele precisa decidir se atuará pela Luz ou das Trevas. O estado de espírito do Outro no momento do seu primeiro contato com o Crepúsculo é fundamental nessa escolha. Medo e raiva ajudam o pêndulo a tender para as trevas, por exemplo. Os vampiros, seguindo o modelo clássico, servem às trevas. Como existe um pacto entre a Guarda Noturna e Diurna, eles não podem morder quem bem entendem. Pelo menos em teoria. Existe uma taxa mensal de mordidas liberadas e controle até com selo de garantia. Nem o mundo mágico escapa dos processos burocráticos e jogos de poder, uma das boas piadas do livro. Já metamorfos em geral podem servir aos dois lados. Um dos mais interessantes do livro se chama Tigrecito e obviamente se transforma em tigre. Ele é um dos mocinhos, na verdade mocinha. Atua como um dos soldados na hora da batalha e sustenta um ar de “eu tenho um segredo” que você certamente já viu por aí em outras histórias. Apesar da ampla variedade de criaturas que Sergey Lukyanenko apresenta ao leitor, o livro se concentra em magos e feiticeiros, muito velhos e manipuladores.
Guardiões da Noite não mostra exatamente uma luta entre o bem e o mal. A Guarda Noturna e Diurna se vigiam mutuamente para manter um equilíbrio, e os dois lados são cheios de artimanhas, o que faz da área cinza um grande tabuleiro de xadrez. Nada impede que o protagonista Antón seja amigo de dois jovens das trevas, ou que o chefe da luz manipule as situações em causa própria. Esse limite tênue é trabalhado o tempo inteiro e ajuda a compor o charme do livro.
Guardiões da Noite não segue a estrutura dramática convencional. Ele é dividido em três unidades, que funcionam como novelas com início meio e fim.
“Yo hacía muchos años que había dejado de interesarme por esos juegos, como la mayoría de los agentes de la Guardia. Matar monstruos en una pantalla pierde todo su atractivo cuando comienzas a encontrártelos por todas partes. Tal vez Olga, que había acumulado una enorme carga de cinismo en el siglo y medio que llevaba dedicada a nuestros menesteres, constituyera una excepción”.
A primeira é divertida, tem muito humor e aproveita o sabor de novidade para fazer uma apresentação cheia de “efeitos especiais”, deixando claro quais são os poderes de cada personagem. É o típico começo para fisgar o leitor. Funciona. A segunda unidade me surpreendeu positivamente por mudar os rumos da história e aumentar a carga dramática. Também tem algo de Agatha Cristhie no aspecto investigativo que ajuda a manter o ritmo da trama através do suspense. Ao mesmo tempo em que tenta provar sua inocência, Antón precisa encontrar o verdadeiro autor de uma série de assassinatos. Os Guardiões da Noite acham que o culpado é um Outro da Luz que se acha um verdadeiro cavaleiro vingador e mata os Tenebrosos que vê pela frente, indiscriminadamente. O problema é que a maioria dos Tenebrosos tem famílias inocentes que sofrem com as mortes, causando um desequilíbrio na balança.
A terceira unidade é muito filosófica e o psicológico dos personagens ganha mais importância do que a trama em si. Sai a ação, entram a conversa e os dilemas morais do protagonista, que não sabe mais se é um legítimo representante da Luz. Seria interessante se não coincidisse com o clímax do livro, o que me deixou meio cansado em um momento em que a adrenalina seria bem-vinda.
Lukyanenko é um bom criador de personagens. É difícil ter antipatia pelo mal ou confiar totalmente no bem. Exceto por momentos desnecessários sobre os limites entre o bem e o mal, o texto flui rápido. Só faltou mesmo um grande clímax na história, resultado talvez de sua estrutura diferenciada. A impressão no fim das contas é que o livro serviu como um grande trailer para o restante da série (o quarto livro saiu recentemente).
Em tempo1: o livro seguinte, Guardiões do Dia (The Day Watch), também foi adaptado para o cinema.
Em tempo 2: Guardiões da Noite, Guardianes de la noche, The Night Watch.