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Se você repete uma coisa e introduz, a cada repetição, uma diferença, você está criando um ritmo e mais do que isso (embora a frase fique com menos e não com mais palavras): está criando. Ponto.

Em música (e, portanto, em poesia também), você escolhe entre assonâncias, consonâncias e dissonâncias. Aliterações, ploces (a repetição proposital de uma determinada palavra em um texto). Antístrofes (repetição em ordem inversa), metagoges (repetição de uma palavra modificando seu significado inicial), paregmênones (enfileiramento de palavras que ecoam uma origem etimológica comum). Enfim.

Marco Paulo Rolla  - fotografia de Elvira Vigna @ AguarrásMesmo que você não saiba o nome certo do que está fazendo. Ou mesmo que você prefira unir tudo isso em uma confortável – e nem sempre entendida – teoria do caos. Porque a teoria do caos, na verdade, fala disso mesmo: uma ordem (a teoria) que é só quase, uma ordem que contém uma diferença, uma imprevisibilidade, uma ordem que não o é.

E mesmo que você apresente não uma poesia ou música, mas uma instalação em uma galeria de arte.

Marco Paulo Rolla armou um pic-nic (escrito dessa maneira) na Vermelho.

Piquenique é uma repetição, e não falo aqui, embora pudesse, dos sons e letras, em rimas e repetições, da palavra em si – o que fica mais aparente ainda na grafia do artista: pic-nic. Falo que piquenique é um ritual e, como qualquer ritual, repete uma fórmula, embora com variações possíveis a cada uma de suas encenações.

O piquenique de Rolla é de cerâmica – essa atividade que nasceu artesanal e virou industrial, sem nunca excluir a possibilidade de produção em série de seus objetos utilitários.

E, dentro do piquenique tipificado de Rolla, há uma repetição interna de objetos: 12 pratos, seis garrafas de vinho, oito copo, além da repetição das frutas (laranjas, maçãs, bananas), talheres etc.

Mas a repetição mais atraente para meu olhar é a da toalha. Uma toalha xadrez, com seus quadrados brancos todos iguais (ou quase iguais), separados pelas linhas em vermelho. Uma toalha xadrez de piquenique, com seus quadrados repetidos e que repete outras trocentas toalhas xadrez de piquenique.

E que, no caso, está amarrotada. E esse foi, para meu olhar, o ápice do caos (daquele, o da ordem que não o é, a que me referi acima).  As dobras, em ondas, são as dobras da crosta terrestre de um continente, a serem medidas em fractais – essa medida que pode mudar a cada nova medição, e que repete, a cada pequena porção, a situação de um todo maior. Quase repete, e o todo é quase todo. Sempre. E talvez eu não devesse falar a palavra sempre mas sim dizer: o que nos parece ser sempre. Depende, a teoria diz, das condições iniciais de observação/experimentação, e como só podemos ter uma, supomos outras, sem as conhecer.

O continente-piquenique de Rolla está contraposto (é só aparente, esta contraposição) a um “mar” que o circunda, o chão da galeria. Nele, está a “natureza”, que tenta nos enganar ser a segunda parte de uma bipolaridade: o piquenique cultural em meio à natureza selvagem.

Mas tem um risinho perfeitamente audível nessa simpleza. Pois o galho, representante do “natural”, veja você, tem suas ramificações também em uma repetição com diferenças – como aliás em geral os galhos. Esse galho não é em cerâmica, é um galho-galho. Ou seja, pode esquecer qualquer conforto em estabelecer situações de nós-eles, artificial-natural, e similares. Não. Não se trata de metáforas, esse outro tipo de repetição. Nem símbolo, nem mito. Nope. Trata-se de um enrijecimento (é em cerâmica, lembra?) de um ritual cultural previsível e atemporal (é um piquenique), e que inclusive já acabou (os alimentos foram consumidos). Esse piquenique pétreo e acabado se dá em um cenário (“natural”) que não mais existe (não temos mais a possibilidade de acreditar em um “natural”). E esse sonho/pesadelo do controle sobre a ordem das coisas, tão detalhadamente construído, berra o seu inverso, o imprevisível – em que estamos todos. Pois você entra na sala e se espanta.

Você já sabia: tratava-se de uma instalação de cerâmica chamada Pic-nic, produzida pelo artista Marco Paulo Rolla durante sua residência no European Ceramic Work Centre, Holanda, em 2000. Você já sabe e se espanta. Tem alguma coisa que você não previu.

Não é inocente essa escolha artística de Rolla. É uma maneira (bem boa) de falar de nós.

Ele já havia atraído minha atenção em uma coletiva anterior (novembro de 2008), na mesma Vermelho, em que expôs uma geladeira atulhada, repleta de comida. Uma pintura de grandes dimensões – e o tamanho só aumenta o impacto das prateleiras caóticas em sua repetição de amarelos, vermelhos, todos consumíveis e repelentes.

Eco, espelhamento, representação. E sempre algo que escapa, pois a pintura e a instalação existem e, na sua existência, já aumentam, repetem e modificam a situação imediatamente anterior. A pintura não usava o hiper-realismo dos simulacros e a toalha em cerâmica brilha como cerâmica e não como pano. É a linguagem. Rolla faz o que faz através de uma linguagem e quer que isso esteja presente. Ou seja, ele usa e expõe – não toalhas, não geladeiras – a linguagem, essa repetição com diferença em que nos inserimos todos. Usa e expõe uma linguagem para apontar o que toalhas e geladeiras, e mais toalhas e geladeiras, e mais e mais, todas quase iguais, repetem e repetem: que não adianta. O que conta mesmo é o momento em que todas elas acabam – toalhas, geladeiras e linguagem – e se vive a falha.

Há mais uma repetição com diferença: o artista, ao representar um piquenique, repete Manet. Com sorte, se pensar muito, você faz o papel da personagem nua, a que abriu mão do excesso.