Por um cinema sem limite, Rogério Sganzerla
Por um cinema sem limite não é um livro para quem nunca estudou ou leu nada sobre o assunto. Ele reúne textos de Rogério Sganzerla que vão da década de 60 até 80, abordando principalmente a transição do cinema clássico para o moderno. Os comentários trabalham, por exemplo, a questão da câmera, da mudança do olhar do diretor sobre o seu objeto, indo de uma visão quase divina para a altura do olho humano. É interessante perceber a evolução da linguagem de Eisenstein a Welles despida de todo o caráter técnico da estruturação cinematográfica e se concentrando na questão da câmera e no modo como o diretor situa seus atores em relação a todos os demais elementos da cena.
“A câmera cínica é a câmera que deixou de participar do movimento dramático, distanciou-se dele; olha-o indiferentemente (…). Com essa distanciação, rompe-se a relação dramática câmera-personagem; obtém-se a visão desdramatizada dos seres e dos objetos, e nessa passagem reintroduzem-se em si mesmos”.
Vale notar que boa parte dos textos foi escrita antes de Sganzerla filmar O bandido da luz vermelha. Como diz a orelha, é um livro muito mais de revelação do que de argumentação, de acordo com o cinema que o autor defende enquanto fala de seus diretores-referência: Godard, Antonioni, Bresson e Orson Welles, entre outros. Aliás, falar da evolução do cinema é obrigatoriamente falar da câmera de Godard em Acossado e da profundidade de campo de Welles em Cidadão Kane. Os comentários de Sganzerla são muito sucintos, de certa forma caóticos, mas a repetição dos conceitos de um texto para outro ajuda no panorama geral do entendimento.
“A reintegração dos seres e dos objetos na dimensão ocular pode ser exemplificada com o título de um filme de Gordard: Uma mulher é uma mulher. Suprime-se assim qualquer noção adjetiva, como por exemplo ‘a mulher é fatal’, a mulher é misteriosa’, etc”.
Dos 18 textos, os mais interessantes desenvolvem o conceito de câmera cínica (com seu contraponto de câmera clínica escrito quase vinte anos depois), e as definições do que seria um cineasta do corpo e um cineasta da alma, de acordo com o que buscam os diretores em suas próprias obras, se uma história calcada em drama narrativo ou um filme que existe simplesmente para desfrutar sua linguagem.
“Em Acossado a câmera cultua o herói, acompanhando-o por intermináveis caminhadas em travelings e contraplongés sistematizados. Em ‘Viver a vida’ as pessoas, destacadamente a heroína, parecem fugir do aparelho, escapar do domínio da câmera cínica”.
Em tempo: a próxima edição merece uma boa revisão de texto e acertos de capa.
Por um cinema sem limite
Rogério Sganzerla
Editora Azougue
118 páginas.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































