Os abutres de Carter
A fotografia sempre foi um dos mais importantes meios para se documentar nossa existência enquanto sociedade. Desde seu advento, acompanhamos nossa própria história através da objetivas de uma câmera, e nem podemos contabilizar todas as fotos que tiveram grande importância no mundo. Se por um lado a fotografia permitiu eternizar um fato em questão de frações de segundo, por outro lado se fez necessário questionar até onde é possÃvel se fazer história ou alcançar um determinado objetivo sem ultrapassar as barreiras da ética.
Todos os dias as bancas de jornal nos oferecem um amontoado de publicações, muitas vezes de gosto duvidoso, onde podemos ver de tudo – de celebridades em momentos Ãntimos até cabeças esmagadas contra o asfalto, tudo sem a menor preocupação com bom senso. Isso gera uma importante discussão sobre os limites da ética e da moralidade nos trabalhos jornalÃsticos, ou mais precisamente para nosso interesse, os fotojornalÃsticos.
Em nossa vida já nos deparamos com um sem número de fotografias impactantes, sejam elas importantes ou não. Porém, a questão aqui tratada é se elas realmente precisam explorar esse caráter explÃcito para gerar uma discussão a respeito do assunto pretendido.  Até onde é necessário mostrar a agonia de um ser humano para sensibilizar a sociedade? Essa realmente é a melhor forma de agir ou estamos simplesmente consumindo um subproduto de nossa própria mediocridade?
Se você leitor espera uma conclusão minha a respeito do assunto, pode adotar o próximo ponto como o final. Este artigo não pretende ser conclusivo, e sim busca fomentar o pensamento crÃtico a respeito dos limites da fotografia e de até onde a ética pode ou deve ser levada em conta dentro deste processo.
Afinal, quem são os verdadeiros abutres?
Kevin Carter era um fotógrafo sul-africano que retratou os horrores da guerra no Sudão. Tinha intenção de fazer uma fotorreportagem com as tropas rebeldes, mas percebeu que a maior guerra era pela sobrevivência. Em 1993, Carter se depara com o que seria mais uma cena tÃpica de seu ofÃcio: uma menina se arrastando para conseguir chegar ao campo de alimentação que ficava ali perto. Em uma pausa nessa estafante jornada, um abutre pousa perto dela esperando que a natureza providenciasse a sua própria refeição. Carter tirou algumas fotos daquela cena e esperou cerca de 20 minutos para que a ave fosse embora, o que não aconteceu até que ele próprio espantasse-a dali.
A fotografia da menina sendo espreitada pelo abutre foi vendida ao The New York Times, alcançando grande êxito, até que em 1994 foi vencedora do prêmio Pulitzer. Um pouco mais de 3 meses depois, Carter se suicida. Sua filha Megan disse mais tarde a respeito: “Eu vejo a criança em sofrimento como o meu pai. E o resto do mundo é o abutre.”
Nesse mesmo contexto, outro ganhador do famigerado Pulitzer em 2006 foi o trabalho fotojornalÃstico intitulado “a jornada de uma mãe“, de Renée C. Byer, que acompanhou a luta de uma mãe, Cindy, contra a doença de seu filho Derek, de 10 anos, portador de um neuroblastoma. Durante meses, Renée acompanhou e documentou a evolução do câncer que culminou na morte de Derek e o impacto da doença na famÃlia e nos amigos.
Muitas questões foram levantadas desde a publicação da matéria, até mesmo sobre se isso tudo não era puro exibicionismo de Cindy. Fato ou não, Byer comenta a respeito de seu trabalho:
“Como repórter me esforço para buscar histórias que ajudem a sensibilizar sobre os menos favorecidos. Era importante contar esta, porque se investem milhões de dólares na investigação do câncer, porém nada fazem para ajudar as famÃlias a enfrentarem o sofrimento emocional e financeiro, que tem um filho em estado terminal”.
Penso eu qual foi a real ajuda que Byer deu a famÃlia de Derek e a tantas outras mães que passaram pelo mesmo sofrimento. As opiniões são diversas, mas o que realmente me chamou atenção no assunto foi um vÃdeo onde Byer aparece comemorando com seus amigos de redação a vitória do Pulitzer. Enquanto a vitória é comemorada, o que sabe-se sobre Cindy é que perdeu um negócio próprio, enviou a filha de 6 anos para morar com o pai enquanto deixou os outros filhos desamparados emocionalmente. É obvio que não sabemos todos os pormenores da relação de Cindy e Byer, mas afinal, quem realmente ganhou nisso tudo?
A mesma pergunta me faço para um evento ocorrido em 1985 onde Omayra Sanchez, uma menina de 13 anos, ficou presa por escombros causados por uma erupção vulcânica que arrasou o povoado de Armero, na Colômbia. Durante as 60 horas em que ficou presa, Omayra teve atenção da imprensa mundial até a sua inevitável morte por falta de recursos técnicos para o resgate. A foto tirada por Frank Fournier serviu como pretexto para a discussão sobre o papel da mÃdia, que era capaz de transmitir em tempo real o sofrimento da pobre menina mas era incapaz de resolvê-lo.
Essas são só algumas de milhões de tragédias que são eternizadas através da fotografia. Desde um jornal de bairro sensacionalista até os ganhadores de prêmios importantes, estamos sempre diante de uma linha muito tênue entre o necessário e o nefasto. Reconhecer os limites entre os dois não é uma tarefa das mais simples. Conta-se uma história em que na hora da morte de John Kennedy, uma senhora perguntou a um fotógrafo:
- para que tanto sensacionalismo?
E o fotógrafo responde:
- isso não é sensacionalismo, é história!
Seja como for, sempre existirá a dor e quem se alimenta dela. A questão é saber identificar quem são os reais “abutres de Carter” ao nosso redor. Pode ser que não saibamos ao certo a resposta, mas uma coisa que posso afirmar sem a menor sombra de dúvida é que a única que não pode ser condenada nessa história toda é a própria ave.
Rafael Frota


































