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Há a natureza e há a cultura.

Entre nesse pensamento, só de brincadeira.

Aliás, entre na Pinacoteca, onde o Chelpa Ferro montou sua última instalação. E a brincadeira – que denuncia a estreiteza do pensamento citado – é que a natureza vira cultura e a cultura vira natureza.

O grupo carioca, formado por Jorge Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler, costuma projetar um clima sobre o ambiente em que se apresenta, modificando-o, e sempre com humor.

Chelpa Ferro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásUma apresentação anterior que vi deles se dava no teatro do sofisticado Centro Cultural Oi Futuro, do Rio. A platéia, vestida para seu programa de sábado à noite, aguardava a música. No palco, o grupo tocou a domesticidade que sua platéia pretendia esquecer indo ao teatro: liquidificadores, latas de conservas, aspiradores de pó, em um barulho infernal.

Na Pinacoteca, o jogo é com o próprio prédio. Uma recuperação das linhas mais antigas da nossa cultura ocidental, como costumava acontecer aos prédios do início do século. Aqui, a recuperação não é bem neoclássica, mas contém um entusiasmo renascentista, contido pela reforma de Paulo Mendes da Rocha e seus tijolos nus, “naturais”.

Quer dizer, o jogo entre natureza e cultura já está lá.

(Inclusive na permeabilidade do prédio, furado, comunicante, em relação ao céu e ao parque.)

Chelpa Ferro - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO Chelpa Ferro monta então um cilindro oco de madeira no Octógono. Parece uma árvore. É uma árvore. Feita. Dela sai, de dez em dez minutos, uma traquitana montada com caixas acústicas de diversos graus de historicidade: há as mais antigas, que remetem a uma época histórica das caixas de som, um período “renascentista”, por assim dizer, e há as mais atuais. A produção sazonal de tal fruto sonoro é certinha, regular. O intervalo de tempo é computadorizado. Cultural, não natural. Mas é o intervalo que parece mais natural para a árvore à sua frente. Uma árvore dessas terá uma estação de frutos desse tipo, sem atrasos ou chuvas extemporâneas.

O som que sai de lá te remete a rugidos de animal selvagem, há assobios de algum pássaro de metal que você procura pelo teto, silvos. E de repente acaba. Abrupto, como quem desliga um botão. E vem vindo, outra vez.

Durante o período colonial – o auge do pensamento descrito acima – o colonizador nomeava o ambiente sem nome, selvagem, que conquistava, e essa era uma maneira de se apropriar dele. Estabelecia fronteiras, e nomeava. E as duas coisas eram igualmente importantes. Chelpa Ferro planta sua árvore no centro exato dos limites do Octógono. E nomeia esse espaço do mais antigo centro cultural da cidade de São Paulo com seus rugidos e silvos. Não deixa de haver, nessa ação, uma crítica implícita ao modernismo e seus ideais de progresso e, bem, ordem. Mas isso não está em primeiro plano, nem caberia, pois a crítica ao modernismo não merece mais que fiquemos nela. Já a sabemos. O aspecto que me atrai mais é como essa nomeação do ambiente se dá. Chelpa Ferro faz um aceno aos limites da linguagem. Sua nomeação, sua redefinição do ambiente em que se instala, é por sons que não formam palavras.

Chelpa Ferro nos diz que nossa natureza é um edifício. Que ciclos históricos da cultura humana podem ser vistos com a mesma indiferença de outros ciclos químico-físicos da vida no planeta.

Me fez lembrar o filme Beleza americana, de Sam Mendes. Há uma cena em que o vento faz dançar um saco plástico. Não folhas de árvores.

Plástico.