1. Você é um autor que escreve tipicamente para um público adulto. Seus textos no blog Palavras que sangram ou no pocket Sexo, drogas e tralalá, por exemplo, lidam com morte e elementos de um universo mais introspectivo. Foi difícil buscar uma nova essência para escrever um infantil?
Produzi muito em minha infância, mas nunca me imaginei escrevendo para crianças, embora a literatura infantil me atraia desde cedo. Meu contato com crianças sempre foi superficial. Não possuo filhos, minha família é distante e dou aula para adultos. Minha temática literária sempre se voltou para as questões do submundo, do amor e da morte, que me fascinam e me inspiram, ou seja, minhas maiores referências de vida e de arte, por isso me chamam por aí de gótico ou “underground”. E de repente me vejo escrevendo para o público mirim. Mais do que isso, envolvendo-me num universo que já pertenci ou que fazemos questão de não mais pertencer.
2. Como surgiu a idéia de O Mistério dos Livros? Sei que a grande inspiração foi Clarice Lispector.
É clichê, mas Clarice é uma das minhas maiores referências literárias. Na adolescência, quando conheci a sua obra e passei a devorá-la, descobri uma entrevista dela na coleção Para gostar de ler. Clarice explicava que, quando criança, se perguntava e imaginava de onde vinham os livros. Nunca me esqueci disso. Anos depois, tanto a recordação de sua curiosidade quanto a sua imaginação mágica, me renderam “O mistérios dos livros”, onde criei a personagem Clarice e reinventei aquele momento indagador da sua infância, com bases ficcionais, claro.
3. Como o projeto foi parar na Alemanha com o livro?
Roseni Kuranyi, uma amiga escritora brasileira que vive em terras germânicas, me chamou para visitar o Projeto Cria-Brasil, uma instituição que visa a educação das crianças de origem brasileira que vivem na Alemanha. Fiquei encantado pelo convite e pelo trabalho do projeto. Mas como palestrar para crianças levando apenas livros de adultos? Então me lembrei que havia escrito o livro infantil sobre Clarice Lispector. Imediatamente resgatei a obra, reescrevi e a apresentei ao meu então editor, Marcos Maynart. Em pouco menos de um mês publicamos o livro e em julho o levei para a Europa. Por coincidência, Clarice Lispector completava trinta anos de falecimento. No Brasil, o livro foi lançado um mês antes da data comemorativa, e no dia exato da sua morte, nove de dezembro, uma peça foi encenada, baseada no livro. Deve ter sido a energia favorável de Clarice que contribuiu.
4. Diz-se muito da dificuldade de traduzir literatura infantil de um idioma para outro. Que é uma literatura de valores muito peculiares e difícil de ser adaptada. Como foi a experiência?
O livro foi publicado no Brasil e lançado na Europa. Não chegou a ser traduzido. Eu o levei na língua portuguesa mesmo. O Projeto Cria-Brasil fez questão de recebê-lo assim, pois está na linha de trabalho que eles realizam, alfabetizando e valorizando a nossa cultura entre os alunos teuto-brasileiros. Claro que as crianças falam fluentemente o alemão, desde as adotadas até as que nasceram ou se mudaram muito novas para lá, mas o projeto instrui a língua portuguesa como um segundo idioma para esses pequenos, sem deixar que eles se desvinculem do Brasil. Na convivência com os brasileiros adultos radicados no estrangeiro, percebi que há uma grande carência sobre tudo o que vem de nós, principalmente nas artes. Levei o caderno cultural de um jornal que comentava a minha ida para a Alemanha e eles devoraram todas as páginas, querendo saber tudo o que acontecia de artístico por aqui.
5. Você já apresentou o livro para públicos distintos, mas acredito que todos eles tenham um ponto em comum. Como você sentiu isso?
Criança é criança em qualquer parte do mundo. A essência da criança é ela mesma. Sou sempre muito bem recebido e aprendo muito. Fico comovido com as mais diversas reações. Quando apareço com meus livros revelando que vim para e por elas, vejo o indisfarçável encantamento em seus olhos. Criança gosta de se sentir especial porque de fato é. Na Alemanha, muitas me perguntaram como era o Rio de Janeiro… se o mar era salgado mesmo… se o Cristo Redentor era realmente grande… Na aldeia indígena que visitei, uma criança curumim se aproximou e me perguntou cheia de deslumbramento se eu havia escrito o livro para ela. Quando visitei a favela Cidade de Deus, na baixada do Rio, pedi às crianças que fizessem um desenho para mim. No momento em que a assistente social me avisou para encerrar o evento, uma menina começou a chorar desesperadamente. Disse a ela que poderia terminar o desenho em seu lar, sem problemas, mas ela me explicou que não tinha lápis de cor em casa. E na escola pública Professor Souza Carneiro, no subúrbio da Penha, várias alunas tímidas quiseram um autógrafo, por nunca terem conhecido um autor. Volto para minha casa e passo dias e noites refletindo. É o tipo de coisa que dinheiro algum no mundo consegue pagar. A maior aprendizagem. O reconhecimento mais gratuito e verdadeiro.
6. Como você foi parar em uma aldeia indígena com um saco de livros nas costas? É possível se conectar a um mundo tão diferente, se é que ele é tão diferente assim?
Tudo começou com um convite que recebi das minhas primas, Eliane de Cássia Bergo, envolvida nas prefeituras mato-grossenses, e Elaine e Érica Bergo, da área de saúde. Através da FUNAI e da Universidade de Mato Grosso, conseguimos chegar à aldeia dos índios Umutinas, que significa “índios barbados”. Eles vivem numa ilha fluvial entre os rios Paraguai e Bugres, na faixa de transição entre a floresta amazônica e o pantanal mato-grossense. Foi uma viagem divertida e aventureira, acompanhado por meus familiares que vivem em Arenápolis. Tanto a recepção quanto o convívio foram de carinho e atenção. Eles valorizam tudo o que vem prestigiá-los e acrescentar-lhes. No centro da aldeia existe uma escola pública chamada Julá Paré, cujos próprios professores são índios. Fiquei impressionado com a organização social e a educação entre eles. Hoje suas raças estão miscigenadas devido às interligações étnicas. E não ignoram a atualidade. Continuam vivendo em ocas, por exemplo, mas são conectados à rede. Alimentam-se ainda da caça, da pesca e da plantação, mas consomem produtos industrializados. Possuem luz elétrica e até um tipo de saneamento. Usufruem da modernidade tanto quanto nós, estudando em faculdades e adquirindo profissões, mas mantém os seus costumes, preservando a sua cultura. Um dos rituais mais famosos dessa tribo, por exemplo, é o Culto aos Mortos.
7. Chegou a ver o Culto aos Mortos?
Participei um pouco daquele cotidiano “selvagem”, numa versão de Hans Staden do século XXI, mas infelizmente não presenciei o Culto aos Mortos. Estes cerimoniais acontecem na colheita do milho ou no decorrer do ano. Eles festejam com vários eventos tradicionais chamados Lorunó (dança com máscaras de cabelo), Yatáribu (cerimônia com canto), Boiká (iniciação dos arcos), Manixuarê (dança com flautas sagradas) entre outras. Trocam suas roupas comuns por vestes e ornamentos típicos, e pintam seus corpos imitando as escamas de peixe. Porém, os pequenos e jovens indígenas me apresentaram uma tradicional demonstração da dança dos guerreiros, onde só os homens participam.
8. Apresentar O Mistério dos Livros em uma tribo indígena foi uma novidade para eles tanto quanto para você? Por mais que seja um infantil, “O Mistério dos Livros” deve carregar no cerne parte das sombras do autor. Houve um choque de culturas e tradições ou a literatura é mesmo universal?
“O mistério dos livros”, como comentado anteriormente, é um mistério até para mim. Trouxe-me acontecimentos inesperados e me abriu muitas portas. É um livro que promove a descoberta da leitura e desperta a sensibilidade artística. A literatura é universal, como provam os clássicos que lemos eternamente. Um episódio interessante na aldeia Umutina foi quando lhes pedi que escolhessem um desenho do livro para pintarem. Todos optaram pela mesma página, com a gravura inicial da menina Clarice brincando com sua boneca num jardim. Foi minha prima Idaliana quem chamou minha atenção para o fato. Não sei se foi o contato familiar com a natureza ou a simplicidade da imagem em si que lhes interessou. A história é outro elemento que envolve diretamente as crianças. Na Alemanha, antes de lermos juntos, pedi que escrevessem no quadro-negro “de onde vêm os livros?”. E responderam: “do céu (da imaginação que Deus nos deu?), “da editora (que faz os livros?)”, “das árvores (que fabrica o papel?)”, “da bolsa (que guarda os livros?)” e “do autor”. Alguém até escreveu “do Fábio”. Quando apresento minha obra a um público infantil, não há distinção, seja numa favela, num bairro nobre ou numa aldeia. A sintonia é tão grande que as crianças rapidamente querem demonstrar suas habilidades: “olha como eu sei cantar…” ou “veja o meu desenho…” ou “eu também posso contar uma história…”. E há os que revelam gostar de escrever histórias, poesias ou diários, seja na cidade grande, no interior ou numa tribo indígena.
9. A pergunta é obvia, mas inevitável: pensando nos índios e na Alemanha. Você acha que o “mistério” propriamente dito foi diferente para os dois?
Como num espetáculo, nenhuma platéia é igual à outra, portanto as reações são as mais variadas. Certa vez me perguntaram por que a capa do livro era preta, e eles mesmos deduziram que se relacionava ao mistério, ao enigma da trama. Em outra situação, queixaram-se do desaparecimento repentino da boneca da personagem, que só é citada no início. Criança é um público crítico e exigente, talvez até mais que os adultos. Se não convencer ou não ficar claro, reclama. Minha prima de cinco anos, Sofia, estava rabiscando a dedicatória que fiz a ela. Diante da minha advertência para não estragar o autógrafo, ela questionou: mas o livro não é meu? No entanto, todos os públicos são iguais quanto ao fascínio de desvendarem o mistério. Me sinto feliz em mostrar que muitas respostas estão simplesmente dentro de nós mesmos.
10. Sei que você está envolvido agora com a biografia da atriz Gloria Pires. Também fez parte da equipe da biografia “Caio Fernando Abreu – cartas”. Como é o processo de construção de um livro sobre a vida alheia? Vira e mexe, dizemos que a realidade é mais interessante que a ficção. A teoria se comprova em uma biografia desse tipo?
O livro das cartas do Caio Fernando Abreu foi uma experiência gratificante e trabalhosa. O Caio deixou muitas cartas aos amigos e fizemos um rastreamento desse material. O processo inteiro do livro levou dois anos. Engraçado que ele próprio, em uma das cartas, recomenda a uma amiga que publique tudo quando ele morresse. Acabei me envolvendo com o mundo biográfico, que sempre gostei de ler. Entretanto, nada é totalmente biográfico na vida de alguém, como nada é totalmente ficcional numa história inventada. Quando se escreve, seja ficção ou biografia, há um ponto em que o real e a imaginação se confluem. Na literatura nem tudo é verdadeiro e nem tudo é falso. A base da ficção é a realidade e não há realidade sem ficção. Ambos são interessantes para quem gosta de escrever. Uma pessoa me perguntou um dia qual tipo de escritor eu gostaria de ser, e respondi que quero ser um escritor que escreva. Acho que um autor deve escrever de tudo, independente do seu estilo. Não gosto de rótulos nem de limitações. Sobre a biografia da Gloria Pires, o escritor e roteirista Eduardo Nassife me convidou para escrever com ele, em comemoração aos quarenta anos de carreira da atriz. Gloria quer lançar a sua primeira obra editorial abordando a vida pessoal e profissional. Na verdade, será a primeira parte da sua biografia, pois sabe que ainda há muito para viver e fazer. Se antes já gostava do seu talento, hoje, além de um dos seus biógrafos, sou seu admirador também. O resto é surpresa!