Meu Caro Amigo
Não é preciso estar morto para ser homenageado.
Partindo deste princÃpio, Felipe Barenco, responsável pelo texto do musical Meu Caro Amigo e, diga-se de passagem, estreante na profissão (e muito talentoso), presenteia o público do Rio de Janeiro com um clima nostálgico e emocionante que pode ser sentido até por objetos inanimados.
Amantes ou não de Chico, isso é totalmente irrelevante, o público sente-se acarinhado pela voz aveludada de Kelzy Ecard, que interpreta Norma Aparecida, uma professora de história fanática por Chico Buarque.
Falando assim, parece uma pecinha super clichê! Quantas mulheres não são loucas pelo Chico? Pelo menos foi o que pensei quando li o texto de apresentação da peça, na revista programa. Não me pareceu ser nenhuma novidade.
Talvez o jornalista não tenha sido tão efusivo quanto eu gostaria, talvez tenha poupado demais nas palavras, talvez não tenha assistido à peça, ou talvez a sinopse seja essa mesmo e eu é que estou fantasiando, querendo achar que a peça é muito mais que isso.
Bom, tem a Norma e tem o Chico. Ela é fã dele. Enquanto Norma conta sua história, Chico canta a história dela. Talvez seja a “cumplicidade”, numa via de mão única, já que o compositor nem sabe quem é Norma, talvez seja o modo como cada música do compositor se encaixa perfeitamente, tanto na vida pessoal da personagem, como no momento polÃtico em que se encontra o paÃs. Ou talvez seja apenas o fato de o texto ter sido muito bem escrito, bem amarrado e bem encenado, e as músicas bem selecionadas e bem interpretadas.
Meu deu até vontade de reler livros sobre a história do Brasil. Admito lembrar mais da Era Vargas. E a Era Chico começa depois disso. Que história boa! A do Brasil, a do Chico e a da Norma também.
Esse é o segredo! São três boas histórias, juntas. A da Norma, que viveu na ditadura, tinha um pai repressor com quem ficou sem falar, participou de movimentos estudantis e era apaixonada pelo Chico. A do Brasil, que sofreu grandes transformações ao longo das últimas décadas, se livrou da ditadura, adotou eleições diretas. E a do Chico, que entre uma música e outra, foi preso, exilado, que participou, ainda que inconscientemente, da vida dos milhares de Normas do Brasil e, conscientemente, da história polÃtica do paÃs.
Uma atuação emocionante de Kelzy Ecard, que tem uma voz e tanto; um pianista – João Bittencourt – de primeira; músicas muito bem selecionadas (o que deve ser tarefa difÃcil, já que a maioria das composições de Chico são boas), enfim, um deleite!
O que me faz pensar naquela velha desculpa de que não se vai ao teatro porque o ingresso é caro. Conversa pra boi dormir. Pelo valor camarada de 15 reais (estudante paga meia), é possÃvel assistir a essa peça tão boa! Cara-de-pau é o vizinho, que tem um Honda Civic na garagem, que diz que não vai ao teatro porque a entrada é um absurdo… A verdade é que o espaço cultural anda bem democrático mesmo. São centenas de peças em cartaz, muitos eventos gratuitos pela cidade, exposições… É só escolher bem. Meu Caro Amigo é garantia de bom programa.
Texto: Felipe Barenco
Direção: Joana Lebreiro
Atuação: Kelzy Ecard
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Piano: João Bittencourt
Centro Cultural Correios
Rua Visconde de ItaboraÃ, 20.
De 5ª a domingo, até 5 de abril.
Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.































