Luanda
Deve ser esse negócio de ser o “outro”. Mas fui à exposição dos artistas contemporâneos de Luanda, na Galeria Soso, achando que ia encontrar registros documentais. Aquele esforço tão nosso conhecido de estabelecer uma identidade, já que “outro” dos outros, temos medo de virar o outro de nós mesmos. E ficamos, então, com a síndrome da realidade. Política, social e por aí.
Era e não era. Não era documental. Mas a busca pelo estabelecimento de uma suposta identidade angolana perpassava as obras.
O engraçado é que, na necessidade – também que conhecemos tão bem – de quebrar estereótipos, não satisfazer expectativas já viciadas pelo lugar-comum dos cartazes de turismo, África mesmo é o que não aparece.
O tratamento do espaço dos quatro artistas escolhidos – Cláudia Veiga, Ihosvanny, Kiluanji e Yonamine – é o de não dar espaço. A superfície das fotos, mesmo as que representam cenas ao ar livre, é coberta pela tessitura da construção human, e pouco ou nada deixa para a paisagem. É como se a África ampla a que nos acostumamos devesse sumir para que a África que os artistas querem mostrar possa aparecer.
No mais, dá-lhe símbolo. Há uma preocupação temática em estabelecer imagens da contemporaneidade. E, no entanto, o processo escolhido para o estabelecimento de tais imagens é o de consolidar aspectos em tropos carregados, metafóricos de uma dada situação ou viés, ou mesmo de uma totalidade que nunca se alcança. E aqui há uma ironia e um paradoxo. Se os artistas pretendem estabelecer uma visão atualizada e dinâmica de uma Angola sujeita, ela também, a uma globalização e hibridização fragmentária, eles tentam isso através da criação de símbolos, mantendo, portanto, um pensamento tradicional de formação de mito.
Claudia Veiga fotografou em seqüência uma performance ocorrida durante evento de arte em Luanda, o Input, em 2008. As fotos mostram uma galeria de arte onde um ator irrompe em uma dinâmica teatral, fazendo elo com um espetáculo de palco que haveria logo a seguir. Tchinganji é o nome do mentor que acompanha a iniciação masculina de jovens angolanos tradicionais. Ele usa máscara. Aqui, a obra, titulada Tchinganji é propositalmente borrada, para que não vejamos o rosto da personagem principal. É uma iniciação para a arte.
O homem vestido de mulher de Kiluanji é outro símbolo. Com scarpins nos pés e roupas tradicionais, ele não é um travesti, no sentido ocidental do termo. É um homem que se veste de mulher e tem apetrechos ocidentalizados e tradicionais. Está lá para singificar algo, e não para ser ele mesmo.
Do mesmo artista e igual intenção há uma foto de uma feira ao ar livre. Alguém posa. Não é um instantâneo. É um representante de etnia tradicional, em meio a objetos ocidentalizados. Essa chama-se Kixima Remix.
Yonamine e Ihosvanny trouxeram vídeos. O primeiro artista tem dois vídeos simultâneos. Em um, duas mãos com luvas, esponja e detergente esfregam e tentam limpar muito bem uma superfície translúcida. No outro, um homem queima lixo feito de jornais velhos. Esses dois vídeos, em looping, trazem, no entanto, uma novidade interessante. O looping não é só o do tempo, digamos assim, da sequência de quadros da câmera. Não. Os jornais queimados têm uma camada atrás, de mais jornais, que também serão queimados, e mais outra. E as mãos, uma está na frente da superfície translúcida que está sendo limpa. E a outra está atrás. Então, o tempo passa também em 3D. Um tempo para trás, que também se repete em eco.
Ihosvanny talvez seja o mais sofisticado do grupo. Seu “road movie” é de imagens polarizadas em PB, o que resulta em uma quase abstração. De tempos em tempos, uma cena “realista”, em cores, não modificada. Como a lembrar que pessoas são só isso mesmo, pessoas.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.



































