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40 novelas de Luigi Pirandello faz parte de um projeto recente da Companhia das Letras de reunir diversos textos de um determinado autor (já são vários na coleção) em um grande livro. A edição com Pirandello tem 505 páginas é um verdadeiro tour de force, muito mais um estudo do que uma leitura rápida de fim de noite, o que não é de maneira alguma um demérito.

40 novelas de Luigi Pirandello Pirandello foi um dramaturgo, narrador, ensaísta e poeta italiano, publicado ainda na década de 1880. Apesar de ser conhecido mais por suas peças de teatro, começou como poeta e contista, publicando em jornais e revistas sem parar. Fica evidente nessa amostragem de textos selecionada e traduzida por Maurício Santana Dias que Pirandello tinha na escrita um exercício de laboratório de suas idéias. Digo isso porque é fácil identificar os temas preferidos do autor e perceber a necessidade de retrabalhá-los até a exaustão, o que é mais benéfico para ele do que para o leitor.

Um de seus temas preferidos é a falência do casamento. Pirandello explora de todas as maneiras as causas e conseqüências da traição. Também repete em um texto ou outro a noção de que quanto mais se despreza alguém mais esse alguém gosta de você, valendo também o inverso. Tratar um cônjuge ou pretendente com muita dedicação é trilha certa para o fim de uma relação, e ressalto aí as relações que terminam mesmo antes de começar. Achei esses textos cansativos, exatamente pela repetição. Se nas primeiras leituras o humor peculiar do autor ajuda a avançar as histórias, mais para frente perde-se o frescor. Mas como comentei, um livro desse porte é mais do que leitura, é um estudo compacto.

Nas palavras de Maurício Santana Dias: “Ao contrário de mestres de prosa naturalista como Zola, Verga ou mesmo o D’Annunzio das primeiras novelas, Pirandello sabe que ‘a vida como ela é’ é irrepresentável. No entanto, é preciso representá-la de algum modo, mesmo que a arte já não dê conta de nenhuma totalidade”.

Curioso ver como Pirandello posiciona a sociedade em suas histórias. O que a sociedade pensa ou deixa de pensar é uma constante influência no destino dos protagonistas. Os personagens secundários ou a sociedade como entidade coletiva estão sempre induzindo os outros a uma ação que parece lógica quando aplicada à vida de terceiros, mas nunca à própria. Alguns personagens conseguem perceber isso no meio do caminho e escapam de finais trágicos, tomando para si as rédeas, mas são raros os casos. Em um dos textos, um homem é traído e tem que matar a esposa. No julgamento, diz que a culpa não foi dele, mas da verdadeira mulher do amante da esposa. Isso porque a tal mulher, ao descobrir a traição, foi na porta de sua casa e fez um escândalo. Se tivesse ficado quieta, ele não precisaria fazer nada, mas com todo mundo sabendo do acontecido, o que mais lhe restava além da possibilidade do assassinato? É mais ou menos esse o clima.

Um dos grandes tesouros do livro são as três novelas que inspiraram Pirandello a escrever a peça Seis personagens à procura de um autor. A relação direta de personagens “fictícios” com um personagem “real” é impagável. O modo como Pirandello trata a superioridade do real diante do imaginário vale a leitura. Geralmente o personagem fictício vem até o autor convencê-lo de que merece fazer parte de um romance e, enquanto disserta sobre suas qualidades, age de forma a desdizê-las.

“Hoje, audiência. Recebo das nove às doze em meu escritório os senhores personagens de minhas futuras novelas. Cada tipo! Não sei por que todos os descontentes da vida, todos os traídos pela sorte, os enganados, os desiludidos e os quase doidos vêm procurar justo a mim. Se os tratasse bem, eu até entenderia. Mas freqüentemente eu os trato feito cachorros; e eles sabem que não me contento facilmente, que sou cruelmente curioso, que não me deixo levar por aparências nem me impressiono com conversa fiada. Pelo amor de Deus, a alguns peço até provas, testemunhos e documentos. No entanto…”

Destaco ainda um conto muito bonito chamado O quarto à espera. É um quarto mantido todo arrumadinho, com lençol trocado, pijama na cama, esperando o retorno de um homem que provavelmente não voltará. Quem o arruma são as irmãs e a mãe que não querem admitir a possibilidade de que esteja morto. A beleza vem não da situação, mas das escolhas narrativas. O conto, de certa forma, é narrado no ponto-de-vista dos objetos do quarto. Os lençóis sempre felizes por estarem limpos e trocados. O relógio feliz porque está sempre com corda. E a vela triste, porque só será acesa quando aceitarem a morte. Os objetos bem cuidados desprezam a vela porque as mulheres não lhe dão atenção. É um texto calcado em sutilezas, muito bem construído. Como a certeza da morte é inegável, a vela acaba tendo seu momento de bons tratos e pode brilhar diante da tristeza alheia.

“Para essa vela é uma desforra”.

40 novelas de Luigi Pirandello
Maurício Santana Dias (seleção, tradução e prefácio)
Companhia das Letras
505 páginas