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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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03/03/2009

Nus

Não gosto de exposições temáticas. Quem me lê já sabe disso então não vou repetir aqui os motivos.

Fui, no entanto, na coletiva Nus, da Fortes Vilaça porque andava pensando que, mais ainda do que em outros temas – como paisagens ou retratos – os nus impõem ao processo artístico uma finalidade a ele estrangeira. E uma trajetória, similar à da arte sacra, que é inversa à da apreensão artística, seja por representação ou deslocamento concreto, dos objetos do mundo.

Fui para acabar de pensar.

Há considerações paralelas. Por exemplo, a presença majoritária dos nus femininos, nessa e em qualquer outra exposição sobre o tema. O poder, que é masculino, que é o do artista, curador e fruidor/comprador/colecionador, sempre mais protegido, menos exposto. Na exposição, os homens estão nus ou na presença de mulheres ou de costas, em um oferecimento homossexual – o que faz deles não exatamente presenças masculinas, mas dessa outra classe que o politicamente correto de nossos dias finge aceitar como sendo um outro-igual mas que, nessa e em outras horas, se prova uma categoria à parte – e diminuída – do masculino.

Mas não é o principal.

O que pensava antes, e terminei de pensar depois, é a respeito dos readymade do modernismo do século passado, época que a exposição pretende resgatar e comparar com uma produção contemporânea sobre o mesmo tema.

Que, claro, começou na colagem cubista, começou no cubismo. Algo do mundo, algo concreto do mundo, que, deslocado, desliza ou acorda para o diálogo sensível, para o toma lá dá cá de percepções, entre dois sujeitos (o objeto que agora não é mais objeto, posto que falante, e o fruidor, lá não tão fruidor assim, mas partícipe, co-autor). E que é, esse diálogo, o que se chama de arte.

Pois, pensava eu, no nu o que acontece é justo o contrário.

Há a produção desse objeto ou situação (no caso de performances e outras modalidades efêmeras desse encontro entre dois sujeitos) em um contexto de arte: feita por alguém que se autodenomina artista, apresentada em um local considerado adequado ao ritual artístico, e com um valor inconsútil determinado por leis que valorizam produções artísticas. Mas aqui, em vez de algo do mundo ser representado, narrado a partir de seu ícone mais significante, ou apreendido tal qual, no seu concreto, para dentro do âmbito artístico, é algo do mundo da arte que é deslocado, que desliza para a fenomenologia da situação erótica.

Como a arte sacra desliza para a possibilidade de outro tipo de êxtase, em nossos dias mais raro que o erótico (ao menos no Ocidente), e que é o êxtase religioso.

Digo que da mesma forma que o readymade de Duchamp continha na sua significação o conhecimento compartilhado, prévio, de um caminho, aquele que um urinol faria de um banheiro público a uma galeria, o nu também contém a premissa do conhecimento compartilhado, prévio, de um caminho que vai da tinta ou do bronze ao repertório erótico, feito e refeito por esta e qualquer cultura.

Daí mais mulheres do que homens.

Costumo, a não ser em vernissages, que evito, visitar sozinha galerias. É raro haver outro visitante nas horas mortas de início da tarde a observar o que observo por prazer e dever profissional.

Não foi o caso aqui.

Edgard de Souza Luiz Zerbini Maria Martins Dan McCarthy

Mal cheguei, vem um grupo de jovens – rapazes, moças. Olham, cochichos, comentários, risadinhas. Saem um pouco antes do que eu. Lá fora os encontro entrando em um carro. Não passavam pela rua e resolveram dar uma olhada. Foram ver a exposição. Era um programa. Estabelecer relações entre Maria Martins e Edgard de Souza? Rir junto com a ironia do carteado de Luiz Zerbini? Admirar o pinto murcho do casal no óleo de Dan McCarthy? Não creio. Vieram sentir a estranheza de um deslocamento. Vieram experimentar, viver o roça-roça de dois mundos.

Não como fica a sensação erótica humana na organização espaço-temporal dessa outra racionalidade, a da estética, mas como fica o quadrinho (ou a escultura) quando incluída no universo erótico da vida cotidiana, comum, lá deles.

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

Nus



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