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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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08/03/2009

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess

E assim começo essa resenha, Ó, meus irmãozinhos, ainda sob influência das gírias dos druguis de Laranja Mecânica. Fico muito tentado a escrever um há há há e fazer lá meus trocadilhos, abusar das jogadas de fonética-ética que Anthony Burgess usa quando o personagem não quer saber da escolacola e só se liga, tipo assim, em enfiar uma britva numa babushka qualquer, num lance muito horrorshow. Mas me apiedo de vossos neurônios e como a resenha não terá um glossário como há no final do livro, prometo me comportar e arrastá-los para o cerne dessa distopia escrita em 1962 apenas em citações.

Laranja MecânicaDe modo simples, podemos dizer que a distopia é o inverso da utopia. É aquilo que deu errado. Sim, mais errado do que o mundo em que vivemos. Pelo menos era essa a idéia. O curioso da ficção-científica é que ela pode se tornar literatura mainstream com o tempo. Vide 1984 de George Orwell e seu “Big Brother is watching you” e o universo ciberpunk de William Gibson que parece desatualizado diante dos apetrechos que usamos hoje em dia.

Laranja Mecânica trabalha uma distopia onde a violência saiu do controle. Ela é chamada de ultraviolência. As ruas estão tomadas por gangues e os cidadãos apanham o tempo inteiro, mulheres são estupradas e idosos são as vítimas perfeitas. A violência gratuita promovida pelos adolescentes não é gratuita para o escritor. Não está lá simplesmente buscando o choque. Burgess a utiliza para manipular sentimentos do leitor e debater dilemas morais. Sabe essa conversa de vítimas da sociedade, criação do sistema e todas as teorias que utilizamos para justificar a geração da violência e as metodologias de combate? Será que manteríamos nossas opiniões sobre o assunto em um cenário extremo? Será que continuaríamos a defender a tese de que a tendência à violência é fruto do ambiente e não é intrínseca ao indivíduo que a comete?

“A música sempre me deixava afiado, Ó, meus irmãos, e me fazia sentir como o velho Bog em pessoa, pronto para provocar raios e trovões e fazer com que veks e ptitsas rastejem em meu poder, buahahaha!”

O livro é narrado em primeira pessoa por Alex. Ele é um dos garotos ultraviolentos, o chefe de uma gangue que aterroriza a região porque dinheiro é algo que se consegue sem esforço. Basta bater, roubar e gastar. E é claro, Alex gosta do que faz. Sente um prazer orgástico quando o sangue jorra de suas vítimas. Orgasmos múltiplos quando ouve música clássica e se imagina chutando rostos e barrigas. Mesmo seus druguis, seus amigos, ele controla na base da violência: um soco no nariz, uma canivetada no pulso, e assim segue a relação de suposta amizade. A naturalidade dos gestos o torna um personagem curioso, difícil de lagar de mão. Uma decisão inteligente de Burgess foi colocar o leitor como confidente do personagem. Alex fala diretamente com quem lê. Quando todos o traem, é o leitor que se mantém ao seu lado, testemunhando seus dias na prisão e o tratamento alternativo antiviolência que é o grande charme do livro e que foi tão bem explorado por Kubrick na adaptação para o cinema.

“O mesto estava quase vazio, pois ainda era de manhã. Também parecia estranho, porque tinha sido pintado com vaquinhas vermelhas mugindo, e atrás do balcão não havia nenhum vek que eu conhecesse. Mas quando eu disse: – Leite-com, grande -, o vek com um litso muito magro e recém-barbeado sabia o que eu queria. (…) Então eu pude sentir a visão se chocando com aquela prata toda, e em seguida havia cores do tipo que ninguém jamais videara antes, e depois eu videei tipo assim um grupo de estátuas muito, muito distantes, que estavam sendo trazidas cada vez mais perto, todas iluminadas por uma luz muito brilhante que vinha ao mesmo tempo de cima e de baixo, Ó, meus irmãos”.

Talvez a pergunta que reste seja essa: se o personagem é tão desumano, o que faz o leitor virar as páginas? Há outras formas de empatia. A raiva é uma delas. O que me moveu foi a curiosidade. Eu não via a hora de ver o Alex se ferrar, apanhar muito, receber de volta tudo o que faz durante a primeira parte do livro. Mas Anthony Burgess é experiente manipulador de sentimentos. Será que o leitor conseguirá apoiar na polícia o que condenava no protagonista? Laranja Mecânica é um livro que voa. Não consegui absorver a violência com facilidade, precisei de pausas, mas assim que a história foi para a segunda parte, a velocidade aumentou consideravelmente.

Laranja Mecânica é um dos clássicos da ficção-científica mundial. O turbilhão de sensações, indecisões e sentimentos que gera no leitor ultrapassam qualquer fronteira de gêneros.

Em tempo: o livro conta com um excelente trabalho de tradução, com um capítulo que explica a origem das gírias criadas por Anthony Burgess e as escolhas feitas para os termos em português. No final, reuniram glossários já publicados, o que ajuda o leitor a não se perder nas gírias de Alex e seu grupo. Diga-se de passagem, “perder-se” nesse universo distópico era a idéia original do autor.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Laranja Mecânica, de Anthony Burgess



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