Gisela Motta e Leandro Lima
A exposição de Gisela Motta e Leandro Lima, Sob controle, na Vermelho, incomoda. Os dois artistas já trabalharam o tema antes. Em uma coletiva, na mesma Vermelho, em outubro de 2008, um vÃdeo mostrava ela jogando facas nele, que se encolhia. O fascÃnio era aguardar o descontrole repentino da mão – e o assassinato.
Bons tempos. Agora, não há possibilidade de descontrole. Claro, o valor polÃtico, de denúncia etc. Mas me perguntei até que ponto essa denúncia, como tantas outras, faria parte, ocultamente, do denunciado.
Bingo.
As obras são feitas com total controle. Não denunciam, mas ampliam o problema, agora não mais sociopsicopoliticoantropologicamente falando, mas incluindo o diálogo (diálogo?) estético.
Começa na primeira mesmo. A que abre a mostra, perto da porta. Precisei perguntar. Luzinhas vermelhas que saem de furinhos da parede da entrada. Ah, é a Bala perdida, e os furinhos representam balas de revolver. Os furinhos são perfeitamente redondos. Do mesmo tamanho. Em espaços regulares.
Segue para os mapas feitos com chips de computador. Sim, eu sei, há a computação randômica, o cálculo probabilÃstico, algoritmos genéticos e redes neurais. Nenhum deles incluÃdo no campo semântico desse Ãcone da mensuração precisa, do 0 e do 1, do sim e do não.
A instalação Do not é feita de fotos de pessoas não querem ser fotografadas. A imposição da imagem vai além do tema e atinge mais do que a pessoa lá, com a mão na frente da cara. As fotos são em baixa resolução, ampliadas. Oba. Possibilidade de um campo dúbio, não preciso, em que uma troca possa se dar? Nope. Cada pixel das imagens foi refeito, com retÃcula, e em cada um foi aplicado, em backlight, um led. É uma construção. Precisa. Lembra uma abstração geométrica do modernismo.
A videoinstalação que dá nome à exposição, Sob controle, tem uma câmera que capta o movimento do visitante frente a ela. Os bonecos uniformizados do vÃdeo então se virarão para onde for o visitante, perseguindo-o com o olhar. São bonecos. Antes de você ser controlado por eles, eles são controlados, em sua feitura, cenário, pelos artistas.
Amoahiki é exibido em grande formato, em uma tela de pano rasgado sobre a qual um ventilador provoca um movimento contÃnuo. São imagens sobrepostas da Amazônia. Aqui, as imagens originais, que poderiam oferecer uma presença do sem controle, são anuladas pela sua sobreposição, que é controlada. Sim, o vento é uniforme.
Tem um laser que forma a palavra Exit. Fica em um quarto pequeno da galeria. Uma fumacinha de vez em quando tenta auxiliar a visão do laser. Mas o que você vê mesmo são os mecanismos de feitura: fios, projetores.
Há, na linguÃstica, basicamente, três tipos de discurso: o autoritário, o polêmico e o polissêmico. O autoritário é o do poder, seja ele de um mestre em sala de aula ou de um ditador em seu púlpito. O polêmico é dicotômico, divide o mundo em dois aspectos inconciliáveis e, no mais das vezes, trata-se de um discurso autoritário que quer se disfarçar de bonzinho. Posso dizer que a instalação anterior dos artistas, o vÃdeo das facas, representava um discurso polêmico.
E o polissêmico é o poético: você passa a vida frente a um deles, descobrindo coisas, acrescentando coisas tuas, modificando-se e modificando-o. É um barato.
Faltou polissemia nas obras do Sob controle. Faltou, justamente, uma brecha para o diálogo. Uma imperfeição que fosse, uma hesitação, um não-saber. As obras são impositivas, autoritárias. Um discurso claro, de quem sabe – e ensina. Você está sob controle. Até mesmo ali, em uma galeria de arte. A exposição incomoda não porque haja um pensamento difÃcil a ser elaborado e descoberto – essa descoberta que obras de artes provocam na gente. Incomoda porque o pensamento já vem pronto. Não há diálogo. Você não é chamado a colaborar.
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.









































