Óidipous, filho de Laios – A história de Édipo Rei pelo avesso
Muitas vezes, um texto insosso vira um espetáculo quando encenado. Outras vezes, o contrário acontece.
Quem não conhece a história do Rei Édipo, por exemplo? Não digo que seja popular, mas uma vez ou outra na vida alguém já fez referência ao complexo de Édipo, seja na faculdade, seja na mesa do bar. Afinal, trata-se de uma história intrigante, que inspira reflexões sobre a natureza e as relações humanas. Dentre as sensações despertadas por esse texto figuram a ojeriza, decorrente da possibilidade de relacionamento sexual entre pai e filho; a identificação por parte de alguns, nunca se sabe; mas, principalmente, a sensação de que não se pode controlar tudo nessa vida. Basta o menor dos imprevistos para que o controle que o homem pensa ter sobre si vá por água abaixo.
Quais as chances de um texto como esse, Édipo Rei, de Sófocles, se transformar em algo aquém do esperado quando encenado? Recriado como Óidipous, filho de Laios, em cartaz no SESC Copacabana (RJ) até 05 de abril de 2009, o que pude sentir foi um grande vazio de sensações.
A releitura de Édipo Rei proposta por Antonio Quinet, responsável também pela direção da peça, tropeçou em algumas montanhas. Que a história estava lá, ninguém pode negar. Entre um clichê proferido sem emoção – “você é a causa de seus próprios males” – e um provérbio digno do Rei Leão – “uma vez desvelada, a verdade não pode ser negada”-, percebemos um jogo corporal bonito até, como uma dança dramática, numa atmosfera enigmática, mas que, sinceramente, nada contribuiu para o andamento da peça. Faltou, principalmente, harmonia. Não só entre os atores, mas também entre as cenas. Os cortes eram abruptos demais. Como se tocasse uma sineta que anunciasse a hora do recreio, os corpos se contorciam, dançavam, rastejavam. De repente, nova sineta! Surge um telão ao fundo do palco, super iluminado… Adeus, mistério! Agora vemos uma mãe amamentando um bebê. Entendo a idéia que se quis passar: a amamentação é uma intimidade entre mãe e filho, que gera uma ligação forte entre os dois. Tem a ver, mas além de não acrescentar nem informações e nem um diferencial à peça, cortou totalmente o clima criado anteriormente. Em muitos casos, uma idéia é ótima como idéia apenas.
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Talvez se quisesse criar uma releitura modernizada, como uma instalação transposta ao teatro, e o Édipo tenha sido apenas um pretexto para isso. Entendo que a atualidade de uma peça não está na época a que ela se refere, e sim na forma como é contada, mas acredito que a forma utilizada não contribuiu muito para esse fim, se é que houve essa intenção. O que me faz pensar se a peça tinha, de modo geral, alguma intenção. Entreter, inovar, emocionar…?
Os atores despiram-se de todas as emoções em casa. Chegaram ao palco inexpressivos, sem conseguir transmitir as angústias, o sofrimento, a dor que diziam sentir. O texto, muitas vezes floreado, tornava difícil a atribuição de sentido ao que estava sendo dito. Isso pode ter colaborado para a falta de emoção. Talvez nem os próprios atores tenham compreendido o que diziam, apenas decoraram a fala.
Enfim, uns batuques daqui, umas falas de lá, uma Jocasta ao chão tentando se lamuriar.
Fazer rimas não é difícil. O desafio é transformá-las em poesia.
Óidipous, filho de Laios – A história de Édipo Rei pelo avesso.
Transcriação do texto e direção de Antonio Quinet.
Realização da Cia. Inconsciente em Cena .
Espaço Sesc – R. Domingos Ferreira, 160 – Mezanino.
De 13 de março a 05 de abril de 2009.
Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.































