Maria Stuart
Texto de Friedrich Schiller, tradução de Manuel Bandeira e direção de Antonio Gilberto, a peça Maria Stuart fica em cartaz no teatro do CCBB do Rio de Janeiro até 17 de maio de 2009. Com Clarice Niskier como Rainha Elizabeth I e Julia Lemmertz como Maria Stuart, a montagem inspirada no drama de Schiller, explora o embate dramático entre as duas rainhas, denuncia a corrupção moral e ressalta os valores de uma época. Finalizada em 1800, a peça, que tem como substrato a rivalidade entre a igreja católica e o protestantismo, traz à tona a forte ligação entre Estado e Igreja, as relações de poder aí inseridas e os conflitos provocados pela sede de poder.
Durante os 15 minutos de intervalo (o espetáculo tem 3 horas de duração), inevitavelmente, pude ouvir muitas opiniões ao meu redor. Houve quem questionasse o figurino. Houve quem dissesse “xii, tá tudo errado”. Houve ainda quem pensasse que o texto perdia muito com a linguagem rebuscada.
Partindo dessas opiniões, com as quais discordo, gostaria de dizer que, em primeiro lugar, é fundamental estar ciente de que o texto de Schiller é a criação de um drama baseado na relação conflituosa entre duas rainhas regentes. A tradução para o português por Manuel Bandeira, apesar de se tratar de uma tradução, já modifica o texto original: alguma marca, mínima que seja, do tradutor fica impressa no texto, principalmente em relação à escolha das palavras, uma ação muito pessoal, que certamente insere a tradução no estatuto da semelhança e não do idêntico.
Quaisquer montagens feitas a partir da tradução de Manuel Bandeira são, portanto, a interpretação da tradução da criação de Schiller, que, aliás, não deve fidelidade nenhuma à história verdadeira de Elizabeth I e Maria Stuart.
Pergunto-me, portanto, o que poderia estar errado. Existe certo ou errado na arte?
Em segundo lugar, a proposta da montagem deve ser observada. A produção propunha uma releitura diferente, inovadora, pós-moderna ou uma montagem nos moldes clássicos, considerando-se, portanto, os trajes, a linguagem e os valores da época? A Maria Stuart que pude assistir optou pelo clássico. Contudo, há de se convir que uma interpretação abra brechas para algumas modificações, que não necessariamente afastarão a peça de sua proposta inicial.
Refiro-me, aqui, ao figurino. Elizabeth I, de calças e sobretudo vermelhos de veludo, vestindo botas de couro. Como um homem, tanto no vestuário quanto nas ações e movimentos, a rainha da Inglaterra, austera e insensível, busca afirmar sua força evidenciando sua face masculina a fim de se impor num ambiente preenchido por homens. Bem colocado. O veludo utilizado ressalta a distinção social da corte de Elizabeth I, a que se destinava o consumo luxuoso.
Do outro lado, Maria Stuart, rainha da escócia. Mais jovem e movida por emoções, a rainha católica exala os encantos da mocidade através de seus discursos carregados de ideais ligados à liberdade e ao amor, e de seus gestos, mais exaltados e expansivos. Seus trajes, também masculinizados, mas simples e em tonalidades de cinza, simbolizam a condição de prisioneira a que está sujeita e a tristeza que invade seu espírito.
O figurino do restante dos personagens, bem como o das rainhas, dispensou pedrarias, ouros e outros materiais preciosos. São trajes simples, cujo tipo de tecido e sua cor foram os únicos responsáveis pela sistematização da hierarquia monárquica e do poder atribuído a cada personagem. Simples como o figurino, é o cenário. Uma cortina preta ao fundo faz contraste com os objetos de cena: uma caixa de madeira, que é um baú real; uma cadeira de traços retos, que é um trono; e uma bancada, que é ora uma mesa, ora uma montanha, ora um patamar. Os adornos ficam por conta da nossa imaginação. Pode ser bom, pode ser ruim. Depende do ponto de vista. Na minha opinião, funcionou, uma vez que a simplicidade que imperou no cenário e no figurino procurou destacar as atuações, as falas, o texto.
Quanto à linguagem rebuscada, bem, trata-se de um texto clássico, traduzido por alguém comprometido em manter a linguagem clássica, levado à cena por alguém que propõe a montagem clássica da peça. Não vejo de que forma a substituição de palavras, de tempos verbais e de pronomes de tratamento por uma linguagem mais “fácil” poderia contribuir em alguma coisa, senão para transformar o texto em algo parecido com Os Lusíadas em prosa para crianças. Que, aliás, existe.
Das atuações, é preciso destacar Mario Borges como Barão de Burleigh, que tem uma das melhores vozes que já ouvi para o teatro; as rainhas, Julia e Clarice, pela gestualidade expansiva da primeira e pela dureza inglesa da outra, características opostas que sinalizam a morte física de uma e a morte emocional da outra; e a dupla Ednei Giovenazzi e Amelia Bittencourt, o mordomo e a ama de Maria Stuart, que oferecem consolo e serenidade à rainha católica frente à inevitável morte.
Maria Stuart
Direção de Antonio Gilberto
CCBB – Rua Primeiro de Março, 66.
Em cartaz de quarta a domingo, até 17 de maio.
Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.































