A aporia do FILE
Derrida tem uma teoria sobre hospitalidade. Segundo ele, trata-se de uma aporia – essa impossibilidade que, no entanto, tenta existir e tenta outra vez, sem cessar.
Tenho outro bom exemplo, ou vai ver é o mesmo: a arte digitalizada e seu convite insistente para que, como hóspedes, nos sentemos à mesa da ‘criatividade’.
Fui ver o F.I.L.E. (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) do Rio, no Oi Futuro, e lá também – como em qualquer outra casa – o impasse de um convite que se proclama aberto, mas que é fechado.
É uma questão ética.
“Vamos dizer sim para qualquer um que chegue, antes de qualquer definição, antes de qualquer antecipação ou identificação”, diz Derrida, para acrescentar: “dá-se a quem chega tudo o que há na casa e em si mesmo, dá-se de si, sem pedir por compensação ou pelo cumprimento de qualquer condição, por menor que seja.”
E essa oferta é aporética, pois marcada por um paradoxo. Se não há limites, se não há nada entre dois lados, esses dois lados se tornam interpermeáveis, indeterminados, não produtivos.
Ou seja, para que exista quem convide e quem seja convidado – e que algo seja feito em conjunto – é necessária a existência de uma barreira. E a barreira destrói a hospitalidade, cuja definição é a da acolhida sem barreiras. Aporia, pois.
Menos que das outras vezes.
Acompanho os F.I.L.E. desde o primeiro. Esse estava particularmente minguado de instalações interativas.
Sheldon Brown trouxe The scalable city que tinha, mais do que a interação, o apelo de uma estética de fim (ou começo) de mundo, muito atraente e muito apropriada aos tempos de hoje.
A de Daan Brickman é sonora, desagradavelmente sonora.
Julio Obelleiro trouxe duas, uma delas, com Alberto GarcÃa (The magic torch), permitindo que o fruidor desenhe em uma tela com uma lanterna de luz (ó deus, mais um desenhinho de luz).
Se você falar bem alto em um microfone consegue que sua imagem entre na tela de TV de Jarbas Jacome, em Crepúsculo dos Ãdolos; e eis um tÃtulo muito bom, que remete à idolatria instantânea e sem valor das famas de 15 minutos. Uma das poucas obras que produzem uma reflexão, uma modificação, em quem a vê.
Troquei de rosto com a monitora da exposição, na bobagem televisiva de Clara Boj e Diego Diaz (mas só funciona se você por a cara bem para cima).
Hugues Bruyère cria uma aura mutante e luminosa em volta da silhueta de quem passa em frente, sempre diferente.
Tinha muita gente mexendo no celular perto de Roaming, de Soraya Braz e Fabio Fon, pois celulares acionam luzes em um painel. Idem, mas com som, na instalação de Giselle Beiguelman e Mauricio Fleury.
Enfim. Você vai, você faz o que mandam, recebe a sua sardinha, e a obra e o artista recebem o resto todo. Qual é esse resto?
O artista que assina a obra abre uma brecha na sua autoridade estabelecida para convidar o fruidor a contribuir com sua atuação na realização da obra. Sem tal atuação, a obra não se realiza. Sem tal atuação, sem a entrada desse falso outro, o artista não se realiza. Sua identidade conta com a presença de um diferente dele, assim como a identidade de quem hospeda só é possÃvel se há a possibilidade de um hóspede – ainda que falso já que limitado por condições ou regras prévias.
Aliás, pode-se dizer que o hóspede, na verdade, é o artista. O artista é hóspede de uma aquiescência, essa sim ilimitada, propiciada pelo fruidor que aceita agir para que o artista exista. Mas, anulado em seu impulso de existência autônoma, o contrário não se dá. O fruidor não alcança a identidade de sujeito – e, muito menos, de sujeito criador da obra. Ao excluÃ-lo de fato de uma co-autoria, o artista falha na obtenção de significado, pois todas as participações são iguais e já previstas. Não há diferenças a serem negociadas, aqui. Nem mudanças. Sem diferenças ou mudanças não há significado a se extrair da interatividade – que, em princÃpio, é o que define, o que dá significado à obra.
Derrida, em seu texto, deixa claro que o local verdadeiro, a casa em que tal hospitalidade (não) ocorre é a linguagem: “temos que considerar se a hospitalidade incondicional não consiste em suspender a linguagem e mesmo a comunicação”. Pois qualquer pergunta ou ordem ou declaração será já um impedimento para a acolhida incondicional.
E eis a maior aporia: uma linguagem pode não estabelecer diálogos e, nesse caso, não pode ser chamada de linguagem embora tenha a intenção repetida de sê-lo. A arte de Jarbas Jacome – a meu ver, a melhor instalação – se apóia em um texto (o tÃtulo de sua obra) mais do que no programa que, afinal, foi o que permitiu que tal obra pudesse ser inscrita em um festival de linguagem eletrônica. É o texto, irônico, antigo e nem um pouco perfeito ou sequer eficaz (exige um pensamento e um acervo cultural prévios) quem conversa realmente com você.
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.










































