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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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28/03/2009

Rumos – Itaú Cultural

A quarta edição do Rumos, do Itaú Cultural, veio com 45 artistas ou grupos de todo o Brasil. Fui lá ver e, como sempre, vou falar mais daquilo que gostei do que não gostei.

Elieni Tenório, de Belém do Pará, trouxe uns corpetes femininos, bem velhos, meio manchados de uso. Pôs na parede. Ficou uma composição geométrica, mas com o rastro do vivido. Achei bem bom e me lembrou outro artista, este consagrado, de que gosto bastante, o Daniel Senise. Ele também faz construções geometrizadas com carradas do vivido, do humano.

Julia Amaral, de Florianópolis, fez umas jóias muito bonitas, pequenas, preciosas. Mas representando insetos peçonhentos, pequenos animais mortos. Ela me fez lembrar Nazareth Pacheco, que também, com sua arte sedutora e perigosa, nos põe de frente com a questão da sedução do olhar. Um aviso sobre para que serve mesmo o ‘bonito’.

Felipe Cohen, de São Paulo, pôs umas caixas de papelão no meio do chão brilhoso do Itaú. Pôs também uns tijolos de basalto. Você fica lá, de pé, ‘conversando’ com as quadriláteros/embalagens. Eles trazem para esse encontro sua vida passada de utilitários. Você traz para o encontro o que você acha de forma geométricas puras. E aí ficam vocês lá, frente a frente, e, bem, não é que eu tenha gostado do papo, mas com certeza saí meio diferente do que entrei. E acho que é para isso que serve a arte – esse outro ‘utilitário’.

Amanda Mei, São Paulo, fez algo de que sempre senti falta. Falo de Farnese de Andrade. Sempre me espanto de não haver mais fios, na arte contemporânea, desse artista que explicitou tão profundamente um estar-no-mundo mineiro-brasileiro, um pathos que você reconhece como sendo seu, de alguma casa de tia velha, de alguma casa qualquer, mas você tem essa casa, esses objetos na sua memória. Todos temos. Amanda pega esse clima, em uma instalação escura, fechada. E o que eu simplesmente adorei: a única poltrona do ambiente não tem pés. Suspensa por fios pretos, que mal se veem no ambiente escuro, ela flutua em um não-espaço/não-tempo que é exatamente o lugar em que está a memória que você tem daquilo.

Kilian Glasner, do Recife, modificou umas fotos de árvores em sua Rua do futuro. Você vê de relance e sente que tem alguma coisa esquisita. Ele mal modifica. Algo geométrico que não pode ser da paisagem. Um ondular em lugar que você espera uma perspectiva plana. Enfim. Uma ‘natureza’ safadamente rindo de você, que esperava um ‘ó, que bucólico’. É uma tendência que tenho visto com frequência na arte de hoje, essa de misturar os dois campos tradicionais. Acho legal. E, no próprio Rumos, perto de Glasner, um outro com a mesma temática: Marcelo Moscheta, de Campinas, enclausurou ‘nuvens’ de algodão dentro de tijolos de vidro. A recepção é a mesma: você lá, vendo uma possibilidade de refúgio ‘natural’ rir de você.

Luciano Zanette, São Paulo, fará com que você nunca mais veja um Amílcar de Castro da mesma maneira. No seu Hábitos insuficientes (o título também é ótimo) ele tomba mesas, bancadas. O resultado é um Amílcar vagabundo, em que toda a potência do ferro é substituída pela madeira fina, pintadinha. É também um riso, este contra outro dos pensamentos sagrados do modernismo, a fé na industrialização, no poder da ordem e do progresso.

Gabriel Netto, de Porto Alegre, dá ao desenho um dia de glória em 3D. Ele põe na parede suas tiras de rabiscos longos, linhas de grafite. E no chão, em frente, a ‘projeção’ dessas linhas em mais linhas, essas alongadas, enviesadas. Bem bom.

Tiago Romagnani, de Florianópolis, trouxe um vídeo de grande teor afetivo. Uma planta cujo vaso é tombado. Ela se vira para a luz, aos poucos. Na instalação A saudade, mais afeto. Um fio de água corre entre dois fios de metal quase juntos. É um fio de água, espremido. Você pode passar horas lá, vendo.

Alice Shintani, São Paulo, espalhou sua tinta por paredes, chão e teto de um espaço do Itaú. Faz lembrar a pintura de protesto feminista, da década de 60 do século passado. Amorfa, abrangente, líquida, essa pintura diz mais sobre uma maneira de ser contemporânea, frágil,  não-limitante nem limitada, do que qualquer traço enérgico e bem definido, da esfera ‘masculina’. E, sim, a cor escolhida para as manchas é cor-de-rosa.

De Laerte Ramos e sua cerâmica de acabamento perfeito eu já falei em outros sobrearte, e mal. Não gosto. Como também não gosto do que o artista, Diego Belda, chama de sinuca. Composições geométricas coloridas. Então não vou falar mais aqui deles. São ambos de São Paulo. Bárbara Wagner, do Recife, traz uma fotos do ‘outro’ que, no caso, são personagens da Zona da Mata. Mas são ‘outros’ bem conscientes desse seu papel, no posar para as fotos. Acho que essa diferença entre o ‘eu’ e o ‘outro’, hoje, não está mais tão nítida e lidamos com as diferenças mais na base do fluxo – e não gostei das fotos. E, provavelmente sendo injusta, também não tive vontade de ficar vendo o registro de performance do Grupo Empreza, de Goiânia. Vai ver até que foi boa. Mas a cada dia estou menos disponível para ver o resgistro de performances. Acho que esse tipo de arte, tão vigorosa e tão importante no que ela tem de ataque ao mercado de arte, devia assumir seu caráter efêmero, fenomenológico, de momento – e pronto.

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

Rumos – Itaú Cultural



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