Aguarras 35 Aguarras 34 Aguarras 33 Aguarras 32 Aguarras 31 Aguarras 30 Aguarras 29 Aguarras 28 Aguarras 27 Aguarras 26 Aguarras 25 Aguarras 24 Aguarras 23 Aguarras 22 Aguarras 21 Aguarras 20 Aguarras 19 Aguarras 18 Aguarras 17 Aguarras 16 Aguarras 15 Aguarras 14 Aguarras 13 Aguarras 12 Aguarras 11 Aguarras 10 Aguarras 09 Aguarras 08 Aguarras 07 Aguarras 06 Aguarras 05 Aguarras 04 Aguarras 03 Aguarras 02 Aguarras 01.jpg

ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

Facebook Twitter RSS
05/04/2009

O filho da mãe

Uma peça que trata do relacionamento entre uma mãe divorciada e seu filho, que aborda a influência da figura materna no processo de transição da adolescência para a fase adulta, pode enveredar por vários caminhos, isto é certo. Mas se o gênero eleito para a representação for a comédia, o cuidado deve ser redobrado.

Em cartaz até o dia 31 de maio de 2009, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, estará a peça O filho da mãe, com direção do estreante João Camargo, texto e interpretação de Regina Antonini e Pedro Nercessian.

O que pode ser rapidamente notado é que a peça, que promete “radiografar a universalidade da relação entre mãe e filho, desde seus aspectos cômicos aos mais poéticos”, se desvia num piscar de olhos desse objetivo e dá início a outro projeto que poderia ser identificado como um quadro do Zorra Total.

O lugar-comum é o grande astro da peça. Onipresente, se encaixa em todas as falas, em todos os momentos. Do relacionamento entre mãe e filho são destacados todos os episódios mais clichês que poderiam existir, como a preocupação da mãe com a sexualidade do garoto, a insatisfação com o recente casamento do ex-marido com uma mulher mais jovem, o zelo excessivo com o filho adolescente e a preocupação com a solidão e com a velhice que inevitavelmente cruzará o caminho da mãe divorciada.

O pior, no entanto, não é nem é o lugar-comum, mas o tratamento que este recebe. Humor fino, comédia inteligente, sacadas geniais com referências que enriquecem o texto: infelizmente, não é isso o que acontece! O oposto disso tudo é o que recebemos. Em quase duas horas de peça, uma comédia super ordinária tomou conta de um tema que poderia render um espetáculo. Piadas baratas e batidas, como aquela desgastada comparação entre uma saia curta e um cinto, além de piadas prontas, das mais óbvias, como uma avó, referida como “Vó Gina”, tentaram impor à peça o tal tom cômico, que para mim nunca chegou.

Em alguns momentos, interrompendo bruscamente essa seqüência de piadas rasteiras, vem a tentativa de nos empurrar goela abaixo uma seriedade e um tom sentimental embalados por música suave, luz baixa e a intragável metamorfose da mãe, de Lady Kate a Ernst Fischer, iniciando uma frase com algo do tipo “a função da arte…”. Pausa para o café!!! Preciso de alguns segundos para processar a cena… Mas não tenho tempo, porque o clima supostamente sentimental e sério da cena é interrompido pelo resgate da voz esganiçada da personagem da mãe e seu empenho contínuo em transformar absolutamente tudo em piada barata. A superficialidade e a inconsistência, que são o ponto de partida e de chegada do texto, são perseguidas arduamente e alcançadas sempre com sucesso.

O saldo é que a peça não consegue se enquadrar nem no cômico, nem no poético. Muito menos nos dois. Mas consegue um lugar muito privilegiado no limbo, ao lado de outras “comédias” do tipo que, convenhamos, existem e se proliferam às pencas! E que têm seu público, disso ninguém duvida.

Meus aplausos, ao final da peça, são integralmente direcionados a Paulo Severo, responsável pela direção musical, que agraciou meus ouvidos com uma trilha muito boa, principalmente por conta daquela espécie de surf music tocada nos intervalos entre uma cena e outra.

 


Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.

O filho da mãe



tags:


artigos relacionados