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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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7/4/2009

Cidades Furtivas

O Centro LABAN-Rio e a Casa da Glória apresentaram nos dias 03 e 04 de abril de 2009 o Ateliê Coreográfico no espetáculo Cidades Furtivas, uma idealização de Regina Miranda, que conta com a direção da mesma e com a colaboração de Adriana Bonfatti, Ana Bevilaqua, Camila Fersi, Elisabete Reis, Lourival Prudêncio e Marina Salomon para a realização do projeto.

Através da construção de um diálogo entre a obra Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, e O Jardim das Delícias, de Bosch, a proposta de Regina Miranda é muito bem sucedida à medida que consegue criar um ambiente que integra o movimento, o caos, a desordem e a fragmentação próprios das grandes cidades, aos sentimentos humanos mais complexos e profundos, como a loucura, a volúpia e o desconcerto instaurados pelo ritmo acelerado da vida moderna.

O grande diferencial fica por conta da forma como essa associação de idéias é oferecida ao público. Espalhados estrategicamente pelo espaço da Casa da Glória, bailarinos/atores compõem cenas, por vezes solitários, por vezes em conjunto, que vão sendo observadas pelo público conforme sua caminhada. Ou seja, pelos cantos do jardim, pela área da piscina, num quintal mais reservado ou numa escadaria, os artistas são posicionados e cada um, solitariamente, ou cada grupo, independentemente do outro, representa seu papel. Bem como acontece na nossa vida. O individualismo crescente num mundo em que as pessoas cada vez mais se isolam é explorado de forma perturbadora. E não é só isso. O público, enquanto caminha, pode observar os gestos, as falas, os movimentos corporais e assim vai percebendo as angústias e os desejos de cada personagem, que afinal de contas, se complementam e se dissociam num piscar de olhos, fazendo dessas “miradas nômades”, como define Regina Miranda, uma estratégia de observação que propõe reflexões sobre situações corriqueiras e efêmeras, mas de grande intensidade. São como fragmentos complementares que aos poucos se unem no imaginário do público, formando infinitas possibilidades de interpretação, suscitando uma série de indagações sobre a vida, a sociedade e o mundo. Além disso, há ainda a possibilidade de poder eleger o ângulo sob o qual se vai observar uma cena, já que da janela do piso superior, do jardim ou das escadarias, é possível ver o que acontece na piscina, por exemplo. Essa possibilidade de não só observar o comportamento e os sofrimentos dos bailarinos/atores, mas também de escolher o ponto de vista, aponta claramente para a vigilância contínua a que estamos submetidos atualmente, para a falsa sensação de liberdade da qual desfrutamos.

Numa espécie de voyeurismo, acompanhamos a loucura desses personagens que exalam sensações arrepiantes, como é o caso de uma mulher, totalmente fora de si, que discute loucamente consigo mesmo sobre acontecimentos de sua vida. Entre falas e movimentos corporais perturbadores, essa personagem representa o que percebo como o último estágio da loucura e do descentramento que a sociedade moderna pode provocar numa pessoa. Apesar da distância física que separa os bailarinos, seus movimentos e falas se encontram no espaço, causando uma caótica polifonia que destaca a desordem que nos rodeia diariamente.

Uma experiência muito inspiradora e reflexiva, ainda mais quando embalada por composições musicais que se integram harmonicamente ao que é oferecido, numa sintonia sem igual, que faz da trilha sonora não só um complemento, mas uma peça essencial do trabalho.

Como o folder do espetáculo omite a informação, perguntei sobre a origem das músicas que ouvia, de modo que vale a pena informar que a trilha sonora é constituída por composições de outros projetos de Regina Miranda, que foram compiladas e incorporadas perfeitamente ao espetáculo.

 


Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.