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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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10/04/2009

Simplesmente Feliz

Sou fã assumido de Mike Leigh. Fiz meu trabalho final de linguagem cinematográfica em cima de Segredos e Mentiras e desde então presto uma atenção especial no que ele produz. Foi nos extras do DVD que descobri o processo criativo peculiar desse roteirista e diretor de cinema e teatro. Mike Leigh primeiro escolhe seus atores e depois senta decide e desenvolve os personagens junto com eles. A partir daí, constrói o já tradicional passado que funciona como base para a atuação e aproveita para desenvolver o presente e dar uma esticada no futuro. Um panorama completo. Feito isso, determina que recorte desse presente aproveitará para escreve o roteiro. É hora então de reunir os atores e pensar nos pontos de encontro e nos diálogos.

Não me arriscaria a dizer que é um laboratório, mas certamente o improviso é peça importante da criação e consegue dar frescor às obras de Leigh. Seja em dramas ou comédias, é muito fácil se identificar com os personagens e encontrar semelhanças entre seus dilemas e os nossos. Se há uma assinatura do diretor, me arrisco a dizer que é essa, o trabalho para manter a atmosfera de veracidade e utilizar a linguagem tornando-a imperceptível.

Em Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky) , a protagonista é Poppy, uma professora de jardim de infância extremamente feliz disposta a colocar um sorriso no rosto de todos. O modo como conhecemos Poppy é essencial para entendermos sua personalidade. A personagem desce a rua andando de bicicleta, sorriso no rosto, acenando para todos, até chegar ao seu destino. Prende a bicicleta em uma grade com o cadeado e entra numa livraria que ainda não conhecia. O primeiro livro que puxa tem um título como “o caminho para a realidade”. Poppy sorri e avisa: “nunca vou querer ler esse aqui”. Passeia pelos corredores, espia um da seção infantil e tenta estabelecer contato com o vendedor, mas o sujeito é sério demais. Quando vai embora, sua bicicleta foi roubada. “E nem pude me despedir”, diz, voltando para a casa a pé.

Se você tem um humor mais ácido, é cínico e gosta de ironias, deve estar pensando que Polyanna basta uma na vida. Pois não se preocupe, Poppy é bem mais estruturada do que parece. Boa parte do sucesso da personagem se deve à total dedicação da atriz Sally Hawkins, que também trabalhou com o diretor em Agora ou Nunca e em Vera Drake. Hawkins consegue entregar ao espectador alguém factível, que no desenrolar do filme vai recebendo finas camadas de complexidade, indo da ingenuidade que a expõe ao perigo potencial à força interna que permite a reação diante do inusitado. Talvez seja essa pseudo-abertura o elemento de suspense do filme, pois uma personagem frágil pode ser atacada a qualquer momento. Não são poucas as pessoas a invejar e tentar destruir a felicidade alheia, e o roteiro trabalha isso de maneiras diversas. Como as cenas abrem espaço tanto para a alegria quanto para os desamores, sabemos que os problemas virão de alguma forma. Além disso, é necessário um contraponto para mover a história e fazer os personagens evoluírem. É parte da equação do apresentar, confrontar e resolver.

Fica então a pergunta: qual seria um desafio a altura de alguém de humor inabalável? Simples: um professor de direção (ou você achou que a bicicleta tinha sido roubada à toa lá no começo?). Poucas situações são mais enervantes do que tirar carteira de motorista. O caso de Poppy é um pouco pior. Para se ter uma idéia, na metodologia de memorização o instrutor apelida os três espelhos do carro pelo nome dos três anjos caídos (que eu não lembro, mas Lúcifer é referência suficiente). Um pequeno inferno com o sorriso de Poppy do lado. Para complementar a paleta de cores, Poppy também precisará lidar com o comportamento arredio de um de seus alunos. As crianças do filme, muito bem utilizadas como ponto de trama, servirão para alimentar a discussão em torno do aspecto da ingenuidade e do que realmente significa ser adulto.

Como dito, sou suspeito para falar do diretor, mas as risadas dos demais espectadores foram consideráveis.

Em tempo 1: sobre os elementos de linguagem imperceptíveis, faço aqui papel de advogado do diabo. Simplesmente Feliz trabalha um código de cores que salta os olhos e a trilha sonora também é peça fundamental.

Em tempo 2: O filme ganhou 20 prêmios e foi nomeado a mais quatorze, incluindo Oscar de melhor roteiro. Sally Hawkins ganhou o prêmio de melhor atriz no festival de Berlim.

Em tempo 3: Em Segredos e Mentiras havia uma particularidade bônus: Mike Leigh não deixou que as protagonistas se conhecessem até a cena em que as personagens se encontram. O resultado é impagável e a cara que as atrizes fazem vale o filme inteiro.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Simplesmente Feliz



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