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A OPELF, Oficina de Produção e Estudos de Literatura Fantástica, começou dia quatro de abril sua maratona de palestras e eventos que ajudam a movimentar o cenário de fantasia e ficção-científica no eixo Rio-São Paulo. Depois de uma palestra de Janaína Azevedo sobre literatura fantástica (que não tive a oportunidade de acompanhar), o clima esquentou com uma mesa-redonda reunindo Ana Cristina Rodrigues (AnaCrônicas), Fábio Fernandes (Interface com o Vampiro e A Construção do Imaginário Cyber), Cristina Lasaitis (Fábulas do Tempo e da Eternidade), Roberto de Sousa Causo (A Corrida do Rinoceronte e Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil) e Gerson Lodi-Ribeiro (Outros Brasis e Crônicas – Taikodom). A OPELF trouxe algumas novidades tecnológicas como entrevistas em vídeo, trailers de livros de novos autores e depoimentos gravados para uma homenagem surpresa a Gerson Lodi-Ribeiro. Segundo Horácio Corral, organizador ao lado de Janaína, a parte tecnológica saiu ligeiramente Steampunk, mas tende a melhorar nas próximas edições. Notebooks só perdem para Datashows na hora de deixar seus donos na mão, o que me lembra de uma das definições de ficção-científica: gênero onde os equipamentos nunca dão defeito nem travam no momento mais importante.

Sobre os temas, houve um frescor nas respostas, mas talvez seja hora de pensar novos questionamentos. Gostei muito de não terem levantado a bandeira do preconceito contra a literatura fantástica (chega disso) ou da simplificação do mercado deficitário brasileiro. Existe um público leitor, senão 1808 não superaria 300 mil cópias vendias, O Filho Eterno do Tezza não chegaria em 10.000 cópias e os livros de André Vianco não sairiam com tiragem de 25.000 exemplares. A pergunta essencial é como chegar até ele e despertar seu interesse por esse nicho específico (fugindo dos arquétipos do nicho, quem sabe), o que de certo modo foi abordado de pontos de vista diversos.

Roberto Causo lembrou que a ficção-científica teve seu momento no país com Sputnik e as armas nucleares servindo de combustível para o interesse, mas que a interrupção da produção por alguns anos minou a oportunidade de se gerar um mercado ou mesmo dados estatísticos suficientes para entender as singularidades desse mercado. Um editor na platéia comentou que não há uma fórmula mágica e é impossível dizer que todo clássico venderá ou que todo livro de ficção-científica tende a ser um fiasco de vendas. É preciso gerar números e criar ferramentas de análises. Como bem colocado por Horacio Corral e Ana Cristina Rodrigues, o fato é que nosso mercado não funciona como o dos Estados Unidos, e isso vale tanto para a dinâmica de consumo quanto para a formação de público leitor, que não contou com as revistinhas pulp responsáveis em grande parte pela disseminação do gênero.

Todos os participantes parecem concordar que é necessário manter a qualidade acima de tudo e acreditar no que se escreve, fugindo das fórmulas do mercado de massa. Como disse Cristina Lasaitis, um bom livro não é sinônimo de vendas, e por mais que tenhamos grandes nomes nacionais pavimentando o caminho até os dias de hoje, eles não foram suficientes para despertar o gosto pelo gênero na geração que os acompanhou. Um pensamento geral parece ser não pensar no público leitor enquanto se escreve, sem se privar, porém, de oferecer o melhor de si. É o paradoxo do egoísmo levantado por Bjork: quanto mais egoísta for o artista na hora de criar sua obra, mais o público agradecerá.

Ainda nesse tema de formação de público, foi importante a participação de Gerson Lodi-Ribeiro. Uma das mentes por trás do RPG Online Taikodom para múltiplos jogadores, lançou no mesmo dia o segundo livro da coleção Taikodom, que explora o cenário do jogo na literatura. Ninguém espera que todos os jogadores venham a comprar o material extra da série (também serão lançados HQs), mas a existência de um público potencial vindo de outras mídias certamente trará bons dados para o debate. É muito comum no mercado estrangeiro que jogos e RPGs originem séries literárias de sucesso, Warcraft e Warhammer estão aí e não me deixam mentir.

No mais, vale ressaltar a importância de eventos desse tipo para o desenvolvimento da literatura fantástica no país. Logo no começo, houve comentários gerais de que os rostos são sempre os mesmos. Que sejam. Pelo que venho acompanhando nos últimos anos, parece que há uma tendência a apreciar mais os eventos com a presença de outsiders do meio. Valorizo pela oportunidade da pluralização de olhares, o Nelson de Oliveira no Invisibilidades 2008 é um ótimo exemplo, mas que não se perca o foco na hora de analisar a relevância. O mainstream sabe fazer de cada uma dessas datas uma grande reunião de conhecidos sem deixar de enxergar o lado profissional. Se os autores de literatura fantástica não souberem fazer o mesmo, a estagnação permanecerá.