Marcelo Zocchio
Marcelo Zocchio expõe muita coisa na Vermelho, mas eu fico com as 12 representações de objetos tecnológicos, sanduichados em acrílico e montados com folhas de papel escavadas.
Esses objetos representados são objetos que produzem representações – de sons, dados, texto. Impressoras, dvds, hds etc.
Portanto, objetos que representam objetos que representam representações da cultura. O acrílico – que os separa do seu entorno – estabelece mais um eco desse jogo de representações, uma vez que sua transparência é modificada pela sua espessura, tornando-se quase um espelho duplo: de quem está na frente e do que está atrás.
E fico pensando nessa sinuca de bico que a arte enfrenta desde que o mundo é mundo – o realismo.
Há mais um detalhe nessa sala de Zocchio. É que, como os papéis são escavados, feridos assim em uma espécie de baixo relevo, o artista também insere, nesse seu pensamento sobre a representação – e sua obsolescência imediata – um viés perverso, de violência.
Mas vamos à obsolescência. E à imanência.
E a Gerhard Richter.
Esse artista do século XX pintava, como se sabe, fotos. Ele pegava fotos – portanto, objetos que continham uma representação – e representava esses objetos em pinturas hiperrealistas. Mas eram fotos fora de foco.
Aqui, são impressoras fora de uso.
Então, o que ambos os artistas nos dizem é de uma excelência artística – é perfeitamente possível haver realismo em arte – que se exerce a partir de um mundo não excelente: fora de foco, se você preferir o registro espacial (o de um referente que está sempre um pouco mais, ou menos, distante do ponto para onde você dirige o seu olhar), ou fora de uso, se você preferir o registro temporal (o de um referente em perene mutação, que só consegue ser apreendido quando já morreu).
Então, há um conceito, que é o da representação realista, aplicado sobre significantes cuja existência real nos foge. Com isso, seu valor de símbolo se torna necessariamente denunciado. E, por causa disso, seu valor de transcendência também vai para o ralo. Então, qual a imanência a que me referi antes?
A da violência. Ao representar um representante de um representado falho, Zocchio ainda mais do que Richter, nos diz que o que fica, o que se mantém para além da vida útil de uma impressora e dos textos que porventura ela reproduziu, é o papel escavado de sua obra. O que fica é a dor inculcada pela inutilidade da passagem. O que fica, como sempre, desse caminho de ida frustrado do conceito para o objeto ideal para o referente real, é o caminho de volta, que é a arte.
Ah! Nas paredes dessa sala de Zocchio estão inscritas as letras e números dos nomes crípticos desses aparelhos obsoletos que ele representa. As letras e números, pelo tamanho e posição, são, por si, uma obra artística também.
Mas de letras e números falo na parte II dessa reflexão sobre os caminhos do realismo em tempos de cólera.
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.










































