Aguarras 27 Aguarras 26 Aguarras 25 Aguarras 24 Aguarras 23 Aguarras 22 Aguarras 21 Aguarras 20 Aguarras 19 Aguarras 18 Aguarras 17 Aguarras 16 Aguarras 15 Aguarras 14 Aguarras 13 Aguarras 12 Aguarras 11 Aguarras 10 Aguarras 09 Aguarras 08 Aguarras 07 Aguarras 06 Aguarras 05 Aguarras 04 Aguarras 03 Aguarras 02 Aguarras 01.jpg

ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

Vimeo Youtube Orkut Facebook Twitter RSS Podcast do Aguarras
17/4/2009

grafismos @ Monica Filgueiras

A exposição coletiva de grafismos, na Monica Filgueiras, complementa o que eu disse no último artigo, sobre a maneira de Marcelo Zocchio (em exposição na Vermelho) ser realista.

Aqui também os artistas representam a representação, e aqui também essa representação representada traz um afastamento, um mal estar em relação ao que seria um referente real – se é que dá para usar, ainda, tais termos.

Na Monica Filgueiras são números, letras, linhas escritas de um texto que não existe de fato, que apenas dá a impressão de ser um texto. Cinco artistas e 23 obras.

Se ainda estivéssemos no modernismo, receberíamos essas obras com a assumpção de que seu significado nos é ocultado por alguma espécie de código, uma simbologia que nos exclui mas que, sim, existe. Em termos formais, seria uma reação à superfície da tela, à perda da narrativa e da profundidade que a arte da época experimentou. Descrevendo a situação o ponto de vista do receptor: Sim, isso daqui (a obra) é tinta sobre tela (ou seja lá o que for sobre o suporte que for) mas esse número/letra recupera um mistério, uma profundidade e uma história que não mais são possíveis no momento em que que sou obrigado a me manter na concretude e superficialidade da tela. Em termos não mais formais mas diagéticos, seria ainda um resto de esperança de transcendência. Assim: Esse número/letra que não entendo não me assusta pois acredito que está tudo certo no mundo, e que há uma ordem superior açambarcando tudo que vejo e vivo. Esse número/letra faz o maior sentido, mesmo que esse sentido  me escape porque, ser inferior que sou, não estou apto a participar dessa epifania.

Os códigos da vinci correm na verdade lá atrás. Fazem parte de um momento histórico já sedimentado, e anterior, ao dos que cavocam, arduamente, o caminho.

Em uma possibilidade ainda não tão difundida de um “hoje”, você não veria números e letras como parte de uma organização existente – e excludente.

Você vê como sem sentido mesmo.

Mas essa recepção, ao mesmo tempo que nega um significado, oferece outro, a partir mesmo dessa negação.

O significado é a ausência de significado. O significado é a ausência de um significado de um mundo que perdeu não só a transcendência, como também a imanência. Obsoleto no momento mesmo do presente. É esse o realismo desses grafismos. É essa a representação realista que eles não dão, do mundo como ele pode ser hoje apreendido.

Os artistas:

Gilberto Guimarães Bastos - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Gilberto Guimarães Bastos nos convida a um joguinho. Tentamos acompanhar, como nos clássicos testes de raciocínio matemático, as leis que regem suas sequências de números. Mas é irrelevante se há ou não tais leis por trás da organização numérica de seus quadrinhos. O olhar do fruidor não se mantém pelo tempo necessário para descobrir isso. Traz para a galeria a perplexidade de quem olha cenas da rua, igualmente incompreensíveis. Ou não importantes, de quem passa e esquece.

O olhar para a obra do Ozi repete esse estar na rua, até porquê ele usa materiais de artistas de rua.

Mira Schendel - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Mira Schendel ainda  tem uma formação mais tradicional de símbolos, como o do número 1.

León Ferrari - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

León Ferrari traz uma escrita em que nada está de fato escrito, mas que se escreve mesmo assim, inculcando sua fragilidade de linhas tortas e finas, sua inutilidade que insiste, que sobrevive. Um estar no mundo feminino ou marginal – os grupos não vistos, os que sobrevivem.

Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br Raquel Kogan - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás - www.aguarras.com.br

Raquel Kogan tem uns videozinhos em que palavras como “rever” e “reter” passam da esquerda para a direita ou vice-versa (em um “tanto faz” muito bom). Passam no total silêncio da galeria, para um nada/ninguém que nos inclui. E é dela também uns livrinhos de que gostei muito. Em evanescente tinta branca sobre fundo preto, as letras que não são letras somem. Ou, ao contrário e igualmente, estão inscritas a fogo, em uma permanência que vira o fio, pois no buraco aberto na página, elas na verdade não existem, são exatamente isso, um buraco. A artista usa um pirógrafo que fere, fura o papel pequenininho e irregular que, nos diz a assessoria, é feito a mão a partir de uma planta do Nepal. Mais fragilidades, inutilidades, efemérides em seu sentido etimológico e vernacular de acontecimentos efêmeros – ao mesmo tempo.

Kogan faz eco a Zocchio, que também fere seu suporte nos seus baixos relevos de estilete.

E Zocchio faz eco a esse grafismo todo, ao apresentar em tamanho grande os títulos tão sem sentido de suas obras (o nome, sempre um composto absurdo de números e letras, que é o nome dos objetos teconológicos que ele representa em suas obras). Os números e letras na sala da Vermelho são bem maiores do que as obras a que se referem. A dizer que quem lê, sem ler, CK3UX é quem de fato apreende o sentido dessa arte.

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.