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ISSN 1980-7767

ano 4
edição atual: número 22, novembro & dezembro de 2009

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18/4/2009

Espelhos Irreais, coletânea

Espelhos Irreais é o primeiro projeto em papel do coletivo de autores Fábrica dos Sonhos. Lançado pela Multifoco, reúne contos de cinco autores, indo da fantasia à ficção. Como toda coletânea, tem seus pontos fortes e fracos, mas no geral o resultado é positivo. Não sou um leitor típico de fantasia clássica. Ao mesmo tempo em que me permito fechar os olhos para as fórmulas de humor da fantasia urbana e gêneros que exploram a ambiência contemporânea, acabo sendo mais exigente com mundos populados por elfos, anões e criaturas similares. Por não ter uma identificação imediata com os personagens, preciso ser convencido pela história, buscando a empatia com a escrita e o escritor e voltando no tempo, quando a fantasia era mais do que uma guerra de anões e tratava de uma batalha interiorizada, mesmo que calcada nas alegorias e contornos épicos que marcaram as grandes obras do gênero.

Espelhos IrreaisLogo no primeiro conto, Aguinaldo Peres foi contra todo esse espírito de grandiosidade que eu estava procurando e mesmo assim me arrebatou dede a primeira página, uma surpresa e tanto. Qualidades da história à parte, o ponto que merece o elogio é a qualidade da escrita. Os Três Trílios é um texto de frases bem trabalhadas, sem carregação de adjetivos, o tipo de conto que é eficiente sem arriscar manobras e pendurar enfeite onde não precisa. Como dizem, escrever fácil é difícil e foi o que o Aguinaldo conseguiu. É um resgate de fábula, com direito a homens comuns se tornando reis e combatendo preconceitos ancestrais em nome da felicidade. É dividido em duas partes. A primeira com os acontecimentos bonzinhos que conduzem à prosperidade do reino, e a segunda com o filho do rei enfrentando alguns revezes por se apaixonar por uma bruxa. Outro elogio válido, os personagens fogem do preto no branco. Nem tudo que a fada pensa é correto, nem tudo que a bruxa faz é errado.
A crítica fica por conta da distribuição das partes. O começo é muito longo, o que roubou um espaço precioso do final. Mesmo acabando no susto, é um dos que merece atenção especial.

“Diferente do tempo humano que é o mesmo para todos os seres, no Reino das Fadas o tempo é individual, cada criatura vive dentro da sua própria bolha de tempo e tem o seu próprio ritmo. Mas mesmo nesse caos existem regras: a velocidade do tempo é inversamente proporcional ao estado de espírito do indivíduo”.

De mesma força, mas explorando estrutura e narrativa distintas, Ana Cristina Rodrigues nos leva para 1488, numa conversa entre Felipe, que é neto de Carlos da Borgonha, e Olivier de La Marche. Felipe está chateado com o que anda ouvindo sobre a morte do avô, abandonado pelos soldados no campo de batalha, e quer saber se o que dizem é verdade. Exatamente pela autora ter um doutorado em História Medieval, havia me preparado para uma seleta de referências e datas que podia ou não dar certo, mas depois que passa a fase de ambientação, o conto dá uma excelente guinada, consistindo em outra boa surpresa de Espelhos Irreais. A carta na manga, como não poderia deixar de ser, ó tolo resenhista, é a fantasia. Para salvar o sorriso de Felipe, La Marche transforma a morte de Carlos da Borgonha numa história repleta de seres fantásticos, uma busca pela fênix. O duelo fantasia versus realidade de A Morte do Temerário trabalha com ingredientes similares aos de O Labirinto do Fauno, mas enquanto no filme o duelo é utilizado como autodefesa, ou seja, vem de dentro para fora, aqui ele flui de fora para dentro, nas palavras gentis de La Marche, que infelizmente não pode atenuar as próprias lembranças. Outro ponto alto.

“Saiba, meu jovem senhor, que das armas da guerra a mais desonrosa é a calúnia. E dentre as injúrias infundadas, o pior tipo é o que ofende os que já faleceram. Mas a verdade deve sempre aparecer, e irei contá-la a você. (…) Carlos estava a muitos dias de viagem de Nancy, em peregrinação, na busca por um tesouro que o transformaria de direito no maior dos príncipes, o que ele já era de fato”.

Bothu e o Elfo Negro, de Roderico Reis, cai no ponto que comentei no início. Não gostei nem desgostei. Pelo título fica evidente que um elfo terá papel central e provavelmente será o inimigo a ser derrotado. A trama em si é bem construída, mas nem história nem personagens fisgaram a minha atenção, provavelmente por o autor depositar suas fichas em uma virada de trama mais para o final, quando poderia ter distribuído mais surpresas pelo texto. Não é preciso colocar o mundo em jogo (péssimo hábito do seriado Heroes, por exemplo), mas o caminho do herói precisa ter uma relevância que transcenda o drama do próprio personagem, e não tenho certeza se Bothu terminou o conto diferente de como começou. Só para não passar em branco, Bothu encontra tempos depois o responsável pela morte de seus pais e tem a chance de fazer algo para compensar a sua suposta covardia na infância. Sobre o texto em si, fica o conselho de tomar cuidado com repetições de palavras. Pode ser que leitores mais afeitos a esse tipo de mitologia aproveitem melhor do que eu.

“Uma grande luz brilhava. Uma luz amarela, forte como uma estrela. Estava a uns cinco metros dele e o fitava. Tinha a forma de um homem, um homem feito de luz”.

Prelúdio, de Daniel Gomes, é o conto mais fraco do livro, por pura falta de fluência, o que só vem com a prática. Faltou trabalhar a construção de frases e pensar melhor as formas de passar imagens para o leitor sem rubricar tanto o texto com detalhes e movimentação de personagem. Esse trecho fala por si só:

“Antes que pudesse chegar mais perto, uma espécie de parede invisível ficou entre ele e o andarilho, cortando o chão com uma profundidade de 10 cm. Quando a poeira se dissipou, lá estava Germano empunhando sua espada com a lâmina voltada para o chão. Com um movimento rápido, colocou a espada em horizontal…”

Fechando o livro, A Gênese de um Novo Mundo traz uma ficção-científica. A história é mais ou menos a seguinte: nosso planeja já era. O pouco que restou dividimos sem critérios de igualdade. Quem é rico leva a melhor parte e o resto você já sabe. Porém, a potencialização da miséria e a situação limite de sobrevivência não nos impediram de continuar procurando um futuro lar. Quando um planeta supostamente habitável é encontrado, é hora de decidir quem serão os escolhidos para populá-lo. E aí entram os protagonistas. Alissa tem na ascendência filósofos, pesquisadores, uma árvore genealógica de alto intelecto. Ela é tratada como uma espécie de Virgem Maria. A mulher que dará o primeiro fruto. O pai da criança será o homem do dinheiro, que patrocinou boa parte das pesquisas que levaram à descoberta do planeta. Um vilão típico. Fechando o triângulo, um jovem órfão apaixonado que quer salvar Alissa de seu destino cruel, mas não é visto de jeito nenhum como um possível progenitor. O ponto forte do conto é a voz de Ana Carolina Ramos. Passado os primeiros parágrafos que são tortuosos até para autores experientes, ela encontra seu estilo narrativo e consegue jogar com a apresentação de personagens e ambientação sem cansar o leitor. É interessante a percepção de que o drama deve vir na frente da maquinaria, do futurismo e da purpurina, fugindo assim de uma armadilha comum na literatura fantástica. A ressalva fica para a construção de personagens, que se encaixam muito rápido nos arquétipos de herói, mocinha, vilão e bom velhinho. Pensar nas tonalidades cinzentas é sempre uma boa pedida.

“A possibilidade de colonização de Alfa-Neo-Gaia foi amplamente divulgada, gerando uma comoção mundial. Alguns não gostariam de deixar a Terra, mas outros desejavam fervorosamente a chance de recomeço. Inicialmente, apenas 250 pessoas seriam escolhidas para a colonização. Quanto a esses pioneiros, todos os favores políticos e influências foram utilizados para que seus lugares fossem garantidos”.

Espelhos Irreais
Organizadora: Ana Cristina Rodrigues
Editora Multifoco.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.