Entrevista com Nazarethe Fonseca
01. Mesmo com boa vendagem na edição anterior de Alma e Sangue – O despertar do vampiro, você passou por dificuldades e precisou mudar de editora. Geralmente, o escritor iniciante acha que um bom resultado é garantia de estabilidade dentro do mercado. Qual a sua visão do mercado editorial atualmente?
Publicar é só o começo, o escritor precisa ir além para entrar no mercado editorial. Para vender, aparecer diante do público conta bastante. Eu vejo o M.E. em crescimento constante. Quando lancei Alma e Sangue em 2001, não tinha idéia do mercado nem das editoras, eu queria lançar meu livro e lancei. Já em 2005 quando Alma e Sangue foi relançado, comecei incentivada por um fã a navegar pelo Orkut e outros sites, compreendi a dimensão do mundo editorial.
Desde 2001 tenho visto o surgimento de novas editoras, como é o caso da Tarja. Temos vários escritores se reunindo em edições independentes. Contamos também com o Fantasticon que reuni e divulga escritores novos e os já consagrados. Não chamo de onda, mas de um desenvolvimento natural da literatura nacional. Não vou reclamar, pois a edição depende exclusivamente do autor, da qualidade do texto e da persistência, por vezes de sorte, ouso dizer. Vejo jovens buscando uma carreira de escritor e sempre me pergunto se eles fazem idéia do quão persistentes eles precisam ser para continuar e se estabelecer.
Editei duas vezes o mesmo livro, e estou indo para a terceira, dessa vez com um projeto consolidado, apoio e estrutura. Alma e Sangue – O despertar do Vampiro será relançado em junho pela Editora Aleph, para preparar o caminho para a chegada de sua continuação, Alma e Sangue – O império dos vampiros ainda esse ano. Percebo o grau de persistência e paciência que precisei esse tempo todo para compreender e me adequar ao mercado editorial. Não existe caminho fácil.
02. A série Southern Vampires de Charlaine Harris, que foi adaptada para a TV no seriado True Blood, aproveitou a temática para tratar de preconceito racional, fanatismo religioso e outros temas pertinentes. Você faz algo similar em sua literatura?
Não planejei nada, foi tudo muito instintivo e necessário. Estava num momento difícil, deprimida. Havia acabado a escola e fiz vestibular para direito. Não passei, tentei um curso técnico e também não passei. Estava ociosa e frustrada com o rumo da minha vida, pois as coisas que dominava eram todas artísticas, balé, música e pintura. Foi assim que veio a fase que chamo de dominó. Ganhei a máquina de escrever, tinha tempo, a idéia do livro surgiu, mas não evoluía. Até que tive um sonho e ele mudou minha vida. Tinha uma boa historia para contar, o amor entre um vampiro e uma mortal. Foi o que contei.
O que veio atrelado à trama foram às diferenças entre ambos, as conseqüências trazidas por esse envolvimento. Ao invadir o mundo da mortal, o vampiro trouxe seus hábitos e inimigos. E Kara ao entrar na imortalidade foi tocada por eles. Ela se choca ao ser beijada nos lábios por uma vampira, por exemplo, pois é desse modo que eles gostam de se cumprimentar, mas logo se acostuma. Também trato de temas sérios como estupro e a violência contra a mulher, mas dentro do contexto da história. Quando terminei o livro I, acreditei estar contando a história de Kara, a personagem mortal, mas ao finalizar o livro II e mergulhar no III, compreendi que ela é parte de uma trama maior.
03. No livro você aponta uma relação entre a festa do boi bumba e o mito dos vampiros que é um dos grandes momentos do livro. Poderia comentar esse trecho?
Lembro-me de quando era pequena acordar de madrugada com o som dos tambores do bumba meu boi, do Tambor de Criola e do Carimbó, e até mesmo com o som dos terreiros de candomblé mais próximos. Em dias como esses as rosas dos jardins próximos desaparecem. São Luiz, aliás, o Brasil é muito rico em lendas e personagens. Nascer e crescer aqui traz sua parcela de culpa criativa. Claro, sabemos que temos a mistura das lendas dos nossos colonizadores e a dos índios, as trazidas pelos negros. Tudo isso junto fez nosso folclore e nos foi passado oralmente através das gerações mais velhas. Eu sempre vi a festa do Bumba Meu Boi como algo misterioso e belo. Eu não resisti e incorporei a tradição da festa no livro, conscientemente. O som durante a apresentação de um boi é eletrizante, matracas, tambores, as vozes, a magia por trás das cantorias. A lenda é cômica e trágica. A mulher de um vaqueiro esta grávida e desejando comer língua de boi. O animal pertence ao fazendeiro rico, mas para satisfazer a esposa ele mata o boi. Durante a morte do animal eles bebem vinho que é a representação de seu sangue. O Boi é ressuscitado com reza e pajelança e agora é imortal. Está tudo ali o desejo, a morte, o sangue e a ressurreição do animal. É praticamente o ritual de transformação dos vampiros. Foi irresistível colocar no livro.
04. Você acha que esse é um caminho para a criação de uma identidade nacional dentro da fantasia nacional? Pretende explorar outros mitos?
Sim, nos temos um folclore riquíssimo. Do mesmo modo que na Europa há lendas sobre vampiros e monstros, aqui temos lendas incríveis. Eu cresci ouvindo sobre elas. A mula sem cabeça, o saci, o Capelobo, Iara. Histórias estranhas de fantasmas e de mulheres que viravam gatos e peixes, homens virando boto. E mesmo com elementos de macumba e pajelança. Um mundo de únicas, todas nossas e à disposição da imaginação. Certamente dão um toque nacional a narrativa de qualquer livro.
E sim. Na continuação do livro Alma e Sangue, que vai sair por volta de setembro de 2009, trago uma passagem sobre A serpente Encantada, que segundo a lenda vive embaixo da ilha de São Luiz. Quero levar o leitor para as galerias subterrâneas, na Fonte do Ribeirão. Acho que eles vão gostar muito.
05. O sucesso de Crepúsculo fez até Anne Rice voltar a ser editada. É curioso pensar que essa geração que curte Bella Swan e Edward Cullen talvez não conheça Lestat, Louis ou Akasha. Que tipo de vampiro atrai o público hoje em dia? Você trabalha seus personagens pensando na aceitação do público?
Deixar de conhecer Lestat é a mesma coisa que deixar de conhecer Drácula. Ambos são ícones da mitologia vampiresca. É importante que os fãs de novas séries como Crepúsculo e outras que venham a seguir tenham curiosidade, há muitas histórias fabulosas por aí. Muito do que hoje se entende por romance de vampiro hoje em dia devemos à Anne Rice, por exemplo. Se gostar do tema, então tem de experimentar as várias vertentes dessa fonte rubra que é o vampirismo.
O vampiro tem um charme natural. Seja bonito ou careca como Nosferatu. A idéia da imortalidade sempre vai nos atrair como mariposas para a luz. E a adaptação desses seres ao nosso mundo é o mais admirável. É nela que o leitor encontra onde se agarrar. Eles não dormem mais em caixas cheias de areia, não temem cruz nem água benta, tomam banho, vão à escola e se apaixonam, sempre. Na verdade, a imortalidade de um vampiro depende de sua adaptabilidade. Cada vez mais eles andam de jeans e preferem sangue de animais ou mesmo sintético, como explorado em True Blood.
Os meus personagens já surgem prontos, sejam bons ou ruins. Vêm num pacote completo com nome, características, personalidade e caráter. Aparecem para preencher a trama do livro e felizmente o publico os aprova. Posso dizer que tenho muita sorte. Mas também recebo reclamações extensas como cada um deles. Meus leitores são exigentes, por isso me exijo também.
O importante é que, sejam cruéis e lindos como o Lestat, interpretado no cinema por Tom Cruise, ou eternamente adolescentes como Edward Cullen, os vampiros demonstram sua força nos seduzindo há séculos e outros séculos virão na companhia desses seres maravilhosos.
06. Como a Internet influencia a produção de um escritor e sua relação com os fãs? Os escritores de hoje sabem aproveitar o potencial da Web?
Os blogs são uma ponte única entre o fã e o escritor. Deixo quase sempre posts no meu e a resposta ao texto é imediata. A web aproxima, faz as notícias chegarem mais depressa. Gosto de receber os e-mails e recados dos fãs, mas meu texto não está submetido aos seus desejos. A história segue seu curso natural, as alterações só seriam realizadas se o desenrolar da trama exigisse. Tenho um leitor que sempre me pede para que Kara fique grávida. É pena não poder atender sua reivindicação. Na minha mitologia os vampiros não se reproduzem, pelo menos não através de sexo e sim por contaminação sanguínea.
Acredito que o escritor tem conhecimento da Web, mas alguns talvez não saibam como usá-la adequadamente. A Web é um espaço gratuito de divulgação, que se bem direcionada atingirá e ampliará o publico de seu livro. É um espaço democrático.
07. Você pode adiantar alguma coisa sobre Alma e Sangue – O Império dos Vampiros?
Em Alma e Sangue – O Império dos Vampiros, o leitor vai finalmente descobrir o que realmente aconteceu com Kara no final do livro I e mergulhar de cabeça na mitologia que criei para tratar de suas regras e organização. Eles estarão presentes em maior quantidade, mostrando suas leis e conflitos, os interesses que os movem, como nos observam e se mantêm escondidos. Haverá momentos de muita tensão e perigo tanto para a vida de Kara como para de Jan Kmam. O rei Ariel Simon estará bastante presente nesse volume, e o amor entre Kara e Jan vai ser posto a prova várias vezes. Enquanto ele não chega, acho que os fãs vão gostar de reler o primeiro livro também. Ele passou por uma ótima revisão, está mais leve, ganhou cenas novas, novos pontos de vista e algumas pequeninas alterações que, já adianto, não mudaram o rumo da historia. Quem já leu só terá a gostar.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.


































