Divã
Em duas semanas, quinhentos mil espectadores. Se nenhum blockbuster wolveriniano varrer as salas de cinema, deve passar logo de um milhão de pagantes, número que escolheram como marca de sucesso comercial no país. Dizem que é efeito da propaganda boca a boca, o que só ocorre quando o filme é bom. Divã, sem dúvida, dá conta do recado. Foi feito para se comunicar com um público diverso sem precisar apelar para um roteiro raso e sem ofender a inteligência de ninguém. Atores da Globo e nomes populares da TV já mostraram que não são garantia de sucesso no cinema. Bom então que o filme aposte em talento, coisa que Lilia Cabral tem de sobra. Não por acaso, a atriz esteve em cartaz com a peça Divã, adaptação bem sucedida do livro de Martha Medeiros. Os dois serviram de material para o roteiro de Marcelo Saback.
Quando ouvi que Divã não era uma comédia, mas fazia rir, que não era um drama, mas fazia chorar, fiquei de pé atrás achando que fosse estratégia de marketing tentando fugir dos rótulos. Filme visto, lembrei de Melhor é Impossível, com Jack Nicholson e Helen Hunt, que também mantém um pé de cada lado, apostando nos atores para equilibrar as duas facetas. Como o filme é uma crônica do cotidiano e ninguém ri ou chora o tempo inteiro, ao menos não deveria, é fácil entender essa escolha. Dito isso, Divã é um filme preciso. Os diálogos são engraçados e eficientes em sua maioria, e existem até gags de humor pastelão, no melhor estilo do diretor José Alvarenga Jr. Diretor e atores também acharam o tom certo para os momentos mais dramáticos, sem exagerar na dose, cabendo aí um elogio para Lilia Cabral e José Mayer nas cenas da separação.
A história é simples. Lilia Cabral vive Mercedes, na faixa dos 40 anos, moderninha, que enfrenta alguns dilemas no relacionamento com Gustavo, o maridão. Ao constatar que o casamento talvez não esteja lá essas coisas, Mercedes passa a freqüentar o analista. Ela suspeita que Gustavo esteja tendo um caso (ótima cena) e decide ter o seu também, tudo na maior tranqüilidade. As cenas no analista são resquícios do monólogo teatral, às vezes explicadas demais, mas com o mérito de permitir que Lilia Cabral brilhe sozinha na tela. Intercalado com esses momentos solo, o espectador conhece as transformações da vida de Mercedes e entra em contato com os demais personagens que avançam a trama. Tanto humor quanto drama aproveitam a questão de idade e a imersão em diferentes nichos sociais como matéria-prima, valendo-se da variedade para evitar o esgotamento.
José Alvarenga Jr. já dirigiu Os Normais, Minha nada mole vida, Os Aspones e A Diarista, todos exemplos de humor inteligente e que devem ajudar a compor o quadro geral do que esperar do filme. Em matéria de linguagem, Divã tem seus momentos teatrais e televisivos, inclusive fade ins desnecessários e uma desfilada típica de fim de novela, mas de modo geral consegue se firmar como cinema de qualidade e afasta o fantasma das celebridades, extraindo o melhor dos atores.
Além do casal principal, ainda participam Reynaldo Gianechinni, Cauã Raymond, Alexandra Richter e Eduardo Lago, entre outros.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































