À procura de um olhar
Foto tem sempre aquela questão da ubiqüidade. Você está lá, na frente da foto, e também está no lugar que a foto representa. No lugar e no tempo. Você está lá, tempo presente, e também em um passado – mesmo se recentÃssimo. E se a foto for declaradamente antiga, então serão três os tempos: o tempo da imagem representada, o da foto quando ela foi tirada, e o teu momento, o presente.
A exposição À procura de um olhar, na Pinacoteca, dá mais uma volta nesse parafuso. Por misturar um olhar estrangeiro (nem sempre dos estrangeiros) com um olhar identificatório e próximo (nem sempre dos brasileiros). Quer dizer, por fazer explicitadamente um zoom de aproximação/afastamento com seu assunto – o Brasil.
São umas 200 imagens, algumas pagando o tributo à história da influência francesa no Brasil (noblesse oblige, quem pagou foi, parcialmente, o governo francês por conta do Ano da França). Mas o que interessa mesmo são os contemporâneos Bruno Barbey, OlÃvia Gay, Antoine D’Agata, Mauro Restiffe, Tiago Santana e Luiz Braga – os três últimos brasileiros.
Mauro Restiffe granula – portanto afasta – uma paisagem que está logo ali do lado, a Praça Roosevelt. Foi clicada no tempo presentÃssimo, 2009. Portanto, perto de nós no tempo e no espaço. Mas é Restiffe talvez, de todos os fotógrafos da mostra, quem mais representa o conceito pretendido pela curadoria, o da problematização do perto/longe entre câmera e assunto da câmera, entre franceses e brasileiros. Restiffe apresenta na sua imagem em PB o que o olho humano não vê. Os seus tons de cinza são bem mais numerosos do que o olhar de um passante pela Praça Roosevelt pode se aperceber. O granulado da ampliação dá uma profundidade – que também não verÃamos a olho nu. Só que esses tons de cinza e essa profundidade são os de um olho ideal, mais potente do que o humano. Mais humano do que o humano. É, assim, uma paisagem que fica distante de um conhecido, de um déjà vu (tenho de parar de fazer citação em francês). Mas que, por sua riqueza de tons e sua diluição ao longe, reafirma o perto. Reafirma, potentemente, sua presença e sua proximidade total.
Tiago Santana, com um Dia de Finados clicado em Juazeiro do Norte, também afasta suas imagens – o que é engraçado, pois ele usa uma ampliação em tamanho maior que o humano. Quer dizer, pelo tamanho dos personagens, a imagem deveria ser recebida como muito próxima, até invasiva, do espaço do visitante.
Luiz Braga apresenta massas de cores contrastantes, quentes, ricas, em sua noite em uma feira de Estrada Nova (RJ). Chega a ser um contraste interessante com as condições de recepção: diurna e no ar-condicionado perfeito da Pinacoteca.
Quanto aos franceses, Bruno Barbey tem um olhar que busca o “diferente”, ao clicar travestis maranhenses com a mesma centralização cuidadosa de besouros espetados em uma mesa de entomologia. É o olhar estrangeiro, distante por excelência. Quase colonialista.
Antoine D’Agata, expressionista, tem uma aproximação fácil, através do emocional, que passa a idéia de uma estratégia de linguagem, mais do que de uma sinceridade.
E chegamos ao que eu gostei mais. Olivia Gay clica mulheres. Estão na distância do “plano americano”, nem zoom total, nem corpo inteiro. Essas mulheres não olham para a câmera. Poderia ser indÃcio de um posicionamento distante. Mas é só respeitoso. Suas imagens são de um dia-a-dia já vivido por mim e por você – e, só pode, pela fotógrafa também. O referente somos nós. As imagens de Olivia Gay estão próximas pelo seu “conteúdo” e por muito mais. Oferecem uma leitura tátil, com a pele dos corpos clicados muito, muito detalhada. Se fosse pintura, seria a técnica da frottage. Em português, esfregação.
É quem faz mais jus à herança do padrinho de todos, presente à exposição: Pierre Verger. Outro estrangeiro que não o era.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.




































