Pudor, de Santiago Roncagliolo
Descobri Santiago Roncagliolo em uma entrevista no El País. Roteirista de novela, chamou a atenção da crítica literária com Pudor, livro de histórias entremeadas que falam da intimidade de personagens muito diferentes na voz, mas com algo em comum em seus medos e desejos. Logo depois, ganhou o prêmio Alfaguarra com Abril Vermelho, lançado no Brasil pela Objetiva. Em Pudor, Santiago faz questão de trabalhar o aspecto inconfessável das histórias e deixa que aos poucos escapem ao controle, preparando o grande clímax.
Os protagonistas são membros de uma mesma família. O pai é um empresário que descobre ter uma doença terminal e começa a assumir certos riscos na vida, apesar de ser do tipo quieto que jamais os viveria em plenitude. Sua grande rebeldia é esvaziar garrafas de uísque que não tem dinheiro para bancar na nova velocidade de consumo. De fato, não é só a constatação da morte que muda seus hábitos, mas a noção de que não pode compartilhar a informação com ninguém, sem se decidir se pela proximidade demasiada ou se pelo desinteresse demonstrado, já que o casamento está numa fase automática de modus operandi.
Sua esposa também parece uma dona de casa típica. Cuida dos dois filhos, de um pai com Parkinson, resolve as traquinagens de seu gato, faz o jantar para o marido e só. Sexo entre os dois não é mais um costume, mesmo nos carinhos já não se completam. As coisas começam a mudar quando um bilhete misterioso aparece em sua bolsa. Um pedido de encontro no meio do mercado, sem nome, só hora e local. A possibilidade de trair o marido a inquieta, mas a curiosidade é maior. Desde que não vá para a cama, pensa, não há mal algum em conhecer seu admirador secreto. A situação por si só já a excita. Quem será ele afinal? O admirador parece alimentar um vouyerismo de desencontros, e quem colhe os frutos dessa relação platônica é o marido, num fogo que ressurge de repente.
“No le habría importado tener una enfermedad que le permitiese una baja con goce de haber, aunque lo obligase a quedarse encerrado en su cuarto, sin moverse. Le parecía que no mover un músculo durante una larga temporada sería perfecto y fácil, sería lo mejor. Pero le faltaban dos años para terminar de pagar la hipoteca. Quería vivir hasta entonces, para ver que su casa se convirtiese en su casa de verdad”.
Numa idade em que o fogo é só lembrança, o avô parece desconfortável com o presente. O velho acaba de perder a esposa, mas não consegue se dar conta disso, pois o Parkinson consome a lucidez. Só sabe que agora nada mais faz sentido, porque antes eram dois e agora ela se foi, seja lá para onde tenha ido. Há uma familiaridade nos atos que simplesmente o torna real, mesmo quando o livro passa a brincar com o absurdo (e o fato de a vida ser cheia deles). É curioso acompanhar o raciocínio de alguém que se afasta da realidade para reviver suas memórias e se reaproxima para constatar que o peso do tempo não traz nenhum glamour, tudo na maior naturalidade.
“Por la tarde, cuando Doris abrió la puerta de su casa para recibir a Papapa, lo encontró con el pelo como un mapamundi con manchas negras, que representaban los continentes, y blancas, que representaban los océanos. Sus dientes eran blancos pero con el blanco de la pintura de pared, no de limpieza”.
No extremo oposto, está o pequeno que vê fantasmas. Santiago trabalha os contatos imediatos de Sergio sempre na fronteira do inexplicável. É com imaginação que a criança processa o que não consegue entender, como a morte da avó, por exemplo. É no hospital, sentado na maca com o cadáver, brincando de nave espacial com tantos aparelhos e tubos pendurados, que ele vê o seu primeiro fantasma, uma mulher que passa no corredor e pergunta se aquele corpo é o dela, recebendo a explicação gentil de que não, é o corpo da avó. A família parece não dar trela para essa história de fantasmas, já que vivem centrados em seus próprios problemas e tentações. Como a irmã mais velha é chata e implicante, é na amiga Jasmine que ele encontra algum conforto e justo ela o desafiará a ver não um fantasma, mas um morto de verdade.
Mariana, a tal irmã, não é mesmo alguém muito feliz. Sem se entrosar na escola, sente total desconforto por ter não ter peitos nem pêlo, enquanto todas as meninas da turma já se parecem mulheres adultas e atraentes. Ela é alvo constante de deboches e tem uma só amiga com que pode contar. É a amiga que a acompanha nos banhos, a amiga de quem observa atentamente o corpo, num misto de inveja e atração. Essa adoração de limites tênues, reverte-se em ódio profundo no dia em que saem juntas e a amiga fica com o pegador do colégio, o cara que tem carro na porta, entregando-se a longos beijos. É um desenrolar semitrágico muito bem pensado, misturando tramas adolescentes com a proposta de família em que os membros não compartilham nada além do jantar.
Para fechar a família, o gato. Quem tem gato em casa vai se identificar com várias situações. Quieto em alguns momentos, ele sai totalmente do controle quando sente um cheiro que não consegue explicar, um cheiro que desperta uma vontade enorme de fazer o que não deve e de agir sem nenhum pudor. É ele que fecha a trama quando todos os desejos se realizam, lembrando aos protagonistas que trazem juntos uma lista interminável de conseqüências.
Não bastasse o desenrolar da história, só a facilidade com que Santiago passa de uma voz para outra já vale a leitura.
Santiago Roncagliolo
Pudor
Editora Punto de lectura.
184 páginas.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































