Skip navigation

Wolverine (Fox) foi muito bem de bilheteria, obrigado. Em uma semana arrecadou US$175 milhões, passando do custo estimado de US$150 milhões, e até o fim de sua vida útil deve pagar com folga os gastos de marketing. Foi um alívio para todo mundo. Os estúdios estavam de pé atrás com o desempenho de Watchmen (Warner) do superestimado Zack Snyder, que arrecadou só US$185 milhões e colocou os super-heróis na berlinda, mesmo sendo singular dentro do gênero. Para piorar a situação, a cópia de Wolverine vazou na rede e em 24 horas todo mundo sabia que o filme era ruim.

Mas então veio a boa surpresa. Mesmo com uma história pífia, Wolverine conseguiu arrastar os fãs para o cinema, talvez pela curiosidade de vê-lo pós-inserção de efeitos especiais. O filme conta a história de Logan e de seu irmão Victor. Logo no começo, quando conhecemos a infância dos dois, a impressão é de que o filme será ótimo, caprichado na direção e na fotografia e calcado na faceta psicológica dos personagens. Infelizmente, é só uma introdução com direito a esticada na abertura e logo a mistura desanda. Para quem não sabe, Victor é o Dentes de Sabre que vira e mexe enfrenta Wolverine nos HQs. Os irmãos se protegem até que o lado sádico de Victor começa a desagradar Logan e cada um vai para o seu canto. Os dois já são adultos, enfrentaram muitas guerras juntos e participaram da equipe do general Stryker, outra figurinha batida para quem acompanha X-Men. Logan resolve ter uma vida pacata nas montanhas com sua mulher e Victor prefere continuar matando para Stryker. Mutante que é mutante não consegue fugir do próprio passado, por isso mais tarde, adivinhem, todos se reencontram e Wolverine precisa enfrentar sua verdadeira natureza.

Os problemas do filme são muitos, mas comecemos pelas qualidades. Os efeitos especiais foram muito bem produzidos, conseguindo ir de tonalidades mais sombrias até o colorido típico de quadrinhos sem perder a unidade. Tem até lugar para um final apocalíptico, com uma versão zumbi de um dos personagens que deve ter desagradado 100% dos fãs. A atuação de Liev Schreiber é excelente, fazendo o Dentes de Sabre roubar as cenas. Os melhores momentos do filme são os que Wolverine e o irmão estão em cena, tanto pelos atores quando pela obviedade de representarem o único conflito com densidade dramática dentro do roteiro.

O resto é problema. A atuação de Danny Huston como Stryker é vergonhosa, quase um Bush depois do donuts. Quem se lembra de X-Men 2 vai sentir imediatamente falta de Brian Cox, uma encarnação bem melhor do ódio contra os mutantes. Os outros atores também não são lá essas coisas, um desfile de rostos bonitos ou nem tanto, com maquiagem pesada para que o espectador possa dizer “ó, ficou igualzinho ao HQ”, a exceção sendo Dominic Monaghan (Senhor dos Anéis, Lost), no papel de Bolt. Pelo pouco tempo que aparece, mostra que sabe atuar e ainda participa da cena do parque de diversões, uma das poucas pensadas para que o visual corresponda ao contexto psicológico.

Para entender o motivo dos tiros n’água, vale voltar até X-Men 3. Foi nele que a Fox desistiu levar para a série diretores participativos e passou a fazer o que se chama filmes de estúdio. Basta colocar um diretor que não imprime personalidade e ritmo próprio e que segue o script, literalmente, recheando a história com cenas de ação e efeitos especiais.

Tudo que Bryan Singer construiu nos dois primeiros segue se diluindo, mas fica a esperança de que pelo menos roteiristas melhores sejam envolvidos no próximo projeto. Os fãs de X-Men agradecem.

Em tempo: estima-se que em pouco mais de uma semana tenham sido feitos 4 milhões de downloads da cópia que vazou.