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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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14/05/2009

Leandro Erlich

Leandro Erlich desestabiliza por três vezes a idéia que eu e você temos de casa, na sua exposição na Luciana Brito Galeria.

Você pode pensar. Se pensar vai perder uma parte da arte dele.

Primeiro perdendo, então, para depois largarmos pensamento de lado e permitir a modificação nos atingir, simplesmente.

A mais óbvia das três instalações é a que mereceu mais destaque. Você sobe (ou será que desce?) uma escada apoiada em uma janela pendurada no vácuo, com seu pedacinho de parede falsa.  A janela é do tipo antigo, com vários panos de vidro, a parede também é, com tijolinhos. A escada é de alumínio, bem moderna.

A segunda é uma porta de madeira grossa, antiga, que levou um golpe de uma bola de ferro e se quebrou. Só para mostrar que atrás dela tem outra porta – comum, atual.

E a terceira é uma falsa clarabóia em backlight, por onde passam nuvens em céu azul. Por onde passa o tempo em um varejo visível que se contrapõe à passagem do tempo por atacado, não visível, das duas primeiras.

Brunelleschi, na sua Santa Maria del Fiore, faz um jogo de espelhos para que as nuvens do céu sejam vistas no lugar destinado ao céu em uma pintura sua. Era a Renascença e era a invasão da representação do real na, até então, arte fortemente ideológica/religiosa anterior. Erlich faz justo o contrário. Sua clarabóia, no meio da galeria de dois andares, é necessariamente vista como artificial. O fascínio é porque é artificial. Um céu possível em algum momento em que céus não são mais possíveis.

Da mesma forma, aquela porta quebrada criou outra, por trás, fez brotar outra, depois do trauma. E a escada é uma entrada (prefiro subir) para outro tempo.

A sua desestabilização é tempo-espacial. Forte paca.

Ou você pode só ficar lá, olhando para cima as nuvens de mentira passar, até ficar com o pescoço duro. Ou se permitir a sensação de usar a escada. Só isso. E sair de lá diferente de quando entrou – também aceitando o tempo, como o artista o aceita.

Na mesma galeria há outra instalação, essa de Fabiana de Barros e Michel Favre. Também desestabiliza o ambiente. Aqui, 240 ms de fio elétrico formam uma teia de aranha. Essa teia te prende – quer dizer, prende a tua imagem – assim que você se aproxima. Se você para, você é “comida” pela instalação. É um bom jogo com a arte de Erlich. Em um, o tempo presentíssimo. Em outra, o tempo paradíssimo.

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

Leandro Erlich



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