O olhar, o vazio, a ideia
Gostaria de poder aprofundar-me mais nesses conceitos e demonstrar os sentindo intrínsecos dos mesmos, colocados sobre a mesma luz que anteriormente, mas ao continuar a ler, viver e a criar, estamos sempre percebendo novas formas de se produzir, ver e sentir a arte, posto que cada indivíduo possui sua própria maneira de ver, sentir, tocar (etc…) a arte, estou apenas reescrevendo uma página superficial sobre o comportamento artístico, dependente de minhas observações e vivências.
Vivendo em um meio dito “intelectual” estou mais propenso a discernir comportamentos artísticos, mas estou também mais calejado das cegueiras coletivas da nossa visão de vanguarda, dos clichês nos quais caímos, nos comportamentos adquiridos de outros, do imenso ego da sensibilidade artística. Percebi que existe um mecanismo de “status intelectual”, motivado pela ideia-olhar-vazio.
É um comportamento que da indícios dos mais simples, mas se mostra em todos os artistas contemporâneos com uma ou outra tendência mais acentuada, um padrão não só de aparências, mas de atitudes ridículas, motivada por um comportamento adquirido.
Ideia
Todo artista, bom ou ruim, tem aquela coisa da qual ele não tem discernimento, todo artista (incluindo-me nessa lista), acha que tem por intervenção divina, mesmo não acreditando nela, o direito e a obrigação de ser melhor que o outro, mais original e acima de tudo mais artista que o outro. A ideia do artista é a motivação intelectual, o leite que faz crescer. Ninguém é aberto a novas conversas, cada artista tem uma forma de pensar que supera a dos demais, sua ideia é a mais centrada, embora seja alicerçada em “sensos comuns” tão arraigados, que ele não tem mais noção de quão idiota e banal esta sendo (nós artistas) devemos ser mais humildes, não estou aqui imaginando que o artista deve ser aquele santo de séculos passados, que se eximia de ter comportamentos que não fossem justificados por atos divinos, estou apenas reiterando que nossas ideias não são mais originais, podem moldar-se para que se tornem novas, mas toda ideia de alguma forma parte do mesmo ponto que atinge a mesma parte do receptáculo – artista – porque então temos que conviver com certos comportamentos que só podem ser justificados por um ego inflado? Não precisamos conviver com isso, o verdadeiro artista – e aprendi isso a duras penas – é aquele que sabe que ao abrirem-se comportamentos diversos a sua estabilidade criativa, pode não apenas aprender, mas cultivar sua ideia para que se torne cada dia mais sua, sem interferência externa, contanto que ele a leve a um nível que antes nunca havia alcançado, ou poderia ter tentado, que é o discernimento por conclusões; pense se o que esta fazendo se justifica como uma arte apenas sua, ou se a inspiração é tão absurdamente “chupada” que pode atingir ao mais imbecil dos seres. Sejamos humildes para sermos artistas melhores. E não glorifiquemos a santidade em que estão transformando os artistas de hoje. Um bom artista é independente do comportamento do mesmo fora da arte.
Olhar
A duplicidade de sentimentos, tocar-sentir, também diz respeito ao olhar e também está intimamente preso nos nossos vícios, somos tão centrados em nossos trabalhos que queremos atingir, demasiadamente fácil o olhar do outro, sem tocar em nós mesmos, não é porque fazemos arte que estamos no caminho certo. As facilidades de pesquisas irrestritas, o contato que a vida contemporânea fornece, podem não só facilitar, como atrasar nosso desenvolvimento, precisamos tocar-nos para perceber que nosso desenho pode ser assim por motivos de influência direta (existem casos de plágio direto). Releituras, pesquisas, observações acentuadas e conclusões definidas pelo que sou, são não só imensamente válidas como fazem parte do desenvolvimento de um profissional que nunca para. Agora pesquisas centradas em um único meio, que dão vazão a um gosto pessoal devem ser repudiadas. Afirmo que se é devido ao gosto, é falho, pois nosso gosto deve ser independente de nosso ser artístico. O gosto não define se somos bons ou maus artistas, ele define individualmente aquela sensação estética que sentimos ao “ver”. O olhar deve ser treinado para separar o gosto pessoal, do gosto artístico e assim desenvolvermos o que é um estilo pessoal. Sei que inovação é impossível, pois parte do campo das ideias, mas porque temos que fazer novamente? Apenas porque a lógica do pensamento já esta pronta? Retirar da ideia é olhar de forma diferente, retirar da forma diferente da ideia é ser uma ideia gasta. Sei que não podemos fugir de determinados pontos, mas podemos tentar extrair de nossas ideias, não das já estabelecidas.
Vazio
Sentimo-nos, como artistas, saltando sobre o vazio, desconstruindo nossa própria existência em um círculo de sensações divinas. Somos mestres de nossas criações, temos todo o direito sobre ela, mas não percebemos como somos vazios a nós mesmos, saltamos sempre em determinado ponto, mudando de assunto, tema, suporte. O vazio nunca será o nada em arte, somos vazios por termos uma ausência. Que se inicia em um sentimento primitivo de transpor a ideia pelo olhar; a arte é essencialmente visual? Sim a história da arte nos mostra isso, mas de forma contemporânea temos levado nossas ideias, diretamente para o vazio, pulando conceitos, vendemos apenas a ideia, ou apenas o olhar, ou os dois. Ausência de vida, de forma, de cor, de sinceridade. Não precisamos pular continuamente nesse vazio, ao contrário. Pois se você ainda acredita que arte é algo que vem de uma musa, que surge de uma inspiração, então você salta continuamente sobre a sua ausência, arte é trabalho. Arte é viver arte. Arte é uma disciplina ferrenha, dura e que cobra constantemente, como uma vida sua dose diária de sustento. Se você é escultor, esculpir é seu lema, e assim por diante, se você espera aquela inspiração, acho mais fácil você esperar pela sua musa, pelo menos o gatilho da paixão pode te impulsionar ao trabalho. Não seja ausente em você mesmo.
Precisamos nos entender como artistas, como pessoas que são comuns e diferentes, sensíveis ou duros. Ao desconstruir, pude perceber meus maiores defeitos, no campo das ideias, do olhar e do meu vazio(no caso ausência), desconstruir-me tem sido difícil, mas tento constantemente. Volto-me ao comportamento do ser-artista.
Alan Cichela



































