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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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05/06/2009

Lordes de Thargor, de Rober Pinheiro

Li Lordes de Thargor – O Vale de Eldor faz um par de semanas e precisei digeri-lo por esse tempo para achar o viés da resenha. Gosto de literatura fantástica como um todo, tenho um apreço maior por fantasia urbana e sou um implicante de longa data com o que é chamado de alta fantasia, cuja referência mais óbvia é o consagrado universo de Tolkien. Acho enfadonho o processo de descrição minucioso de novos mundos e me irrito com as batalhas entre anões e elfos que o velho escritor desencadeou na literatura e em jogos de RPG. A alta fantasia também costuma ter um número maior de personagens, num vai e vem que me distrai. Se o autor opta pela criação de um idioma próprio (você sabe falar élfico?), a confusão se eleva um pouco mais. Isso, deixo claro, é uma limitação minha. Os fãs de alta fantasia mergulham de cabeça nessa infinidade de personagens e alguns chegam a estudar os idiomas fictícios. Conversar com fãs de Senhor dos Anéis é um jeito prático de entender o que quero dizer.

Acredito que pelo desgaste natural que a Terra Média sofreu ao longo dos anos e das cópias, Rober Pinheiro tenha tentado fugir ao máximo do bê-á-bá tolkieniano e da regra imaginária de que todo novo autor de fantasia precisa começar com reis e elfos salvando o mundo da devastação. Ponto positivo. Houve um esforço louvável direcionado à criação de um universo repleto de raças e criaturas que não se inspirasse (ou aspirasse, como é o caso mais comum) na mitologia anglo-saxônica. Essa decisão, independentemente de autor ou livro, sempre traz dois aspectos à tona: o primeiro é o valor do inédito, o frescor na busca de uma identidade própria. O segundo é o fato de que o autor não poderá contar com o imaginário coletivo no desenvolvimento da ambiência, tendo que trabalhar do zero a diegese. Quando um dos personagens conta a história da criação de Thargor para o protagonista, precisei de releituras e piscadas para absorver o que estava acontecendo, porque a quantidade de informação é muito grande. É uma parte que daria facilmente um livro (fica a dica de uma prequela) e que enche os olhos. Mas a conexão efetiva como leitor, essa estabeleci com os eventos do tempo presente, e aí a leitura fluiu com facilidade. O desfile de seres fantásticos é quase ininterrupto, com pequenas pausas para recuperar o fôlego, e todos mantém o nível de interesse. Exemplos marcantes são um gorilão de asas coriáceas que é o inimigo central da trama, um guerreiro de pele azul e armadura prateada chamado Háriel Ehltor e o povo felino Ilmory, que considero a cereja do bolo.

“No entanto, mal teve tempo de pôr os pés no chão quando sentiu um forte tremor agitar tudo à sua volta. De repente, uma parte do teto do quarto foi arrancada como se fosse papel molhado e ele viu algo estarrecedor passar pela abertura irregular. Uma enorme criatura de asas negras estava parada embaixo do buraco, resfolegante e envolta numa nuvem de poeira. (…) Era enorme, de mais de dois metros, e tinha a aparência simiesca de um grande gorila, com olhos vermelhos como faróis e dois grandes dentes incisivos inferiores saltando ameaçadoramente para fora da boca. As orelhas caídas dos lados da cabeça, parecidas com orelhas de cachorro, subiam e desciam conforme ele respirava”.

Estão lá influências como o Caipora e até uma versão do mito do boto, numa rápida aparição. Os leitores mais tradicionais gostarão de saber que também há centauros e dragões, já para o final do livro. Cheguei a ficar de pé atrás quando vi dragões em contraponto ao autoral, mas terminou por ser uma das minhas partes prediletas da história, provavelmente por adotar um ritmo mais tradicional de aventura que me remeteu a História sem Fim.

“Olhou ao redor para as pessoas que estavam reunidas ali e viu que eram em sua maioria mulheres, com alguns poucos homens e quase nenhuma criança. Àquela hora, provavelmente todas as crianças que vira quando chegou à vila já estavam dormindo. Continuou a observar com certa curiosidade o círculo em volta do fogo e as pessoas subitamente tingidas de vermelho que o formavam, com seu falatório intermitente e seus gestos largos e teatrais (…)”.

Lordes de ThargorOutro aspecto digno de nota é a inversão da lógica do “herói viaja para um mundo mágico”. Ao invés do protagonista Deivison Martins (nada de nomezinho Zona Sul) passar por um portal ou cair num buraco, é o mundo mágico que vem atrás dele, já que muitas das criaturas de Thargor vivem por aqui. Isso permite explorar cenários como o centro de São Paulo, Fernando de Noronha e a Amazônia, todos remodelados dentro da fantasia. Esse descortinamento se dá quando Deiv encontra uma pedra mágica que projeta a sereia azul da capa do livro, e sua vida de pernas para o ar. Encontrar artefatos é um recurso comum em fantasia e a pedra de Zhar tem uma grande importância para o destino de Thargor, entretanto, Rober Pinheiro teve a manha de não colocá-la como uma arma milagrosa que poderia desequilibrar a história ou a jornada do herói.

Um atrativo extra para alguns leitores será o choque da descoberta, trabalhado quase em tempo integral. O protagonista desconfia do que ouve sobre a origem de Thargor e das razões de estar metido na confusão fantástica, cedendo somente quando a magia tomar dimensões irrefutáveis que arrefecem seu questionamento. Como todo herói adolescente, também desconfia da própria capacidade de lidar com o problema que tem pela frente, e é aí que surge a ponte entre a dimensão épica da história e o valor da conquista pessoal, o verdadeiro legado deixado por Tolkien, muito além dos paetês e purpurinas.

Apesar de Lordes de Thargor – O vale de Eldor ter uma história fechada, o espaço para continuações é amplo, podendo nascer aí uma bela saga de fantasia nacional… uma que passe longe da maldição das trilogias, por favor.

Em tempo: fãs de Tolkien, não me odeiem.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Lordes de Thargor, de Rober Pinheiro



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