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A leitura do livro de Emmanuel Carrère, Um romance russo, editado pela Objetiva, coleção Alfaguara, dá o que pensar acerca das narrativas contemporâneas. O romance inicia-se em um trem, que viaja aos confins da Rússia, atrás de um interno que, dos hospitais psiquiátricos da Sibéria, é levado de volta à Hungria, que havia abandonado, quando feito prisioneiro na Segunda Guerra. Um clima onírico se instala no vagão em que viaja. A Sra. Fujimori aparece para um rápido ménage, com o narrador e sua namorada. O clima se mantém durante a estada do narrador na cidade siberiana e no relato sobre o húngaro repatriado. O mundo parece feito de equívocos.

O narrador, cineasta e intelectual respeitado, descende de família russa, expatriada na França. Aos poucos apresenta as personagens que, tanto em Kotelnitch quanto em Paris, vivem a desdita, a marca da tragicidade. Como deuses decaídos, como tiranos que perderam o poder, Édipos redivivos, se deixam levar pela recusa do que são, pela incapacidade de reconhecerem as mudanças sofridas pelas sociedades. Pela perda irreparável do que possuíam, seja o amor do outro, seja da supremacia social que o intelectual francês e a polícia russa possuíram um dia.

Em torno destas perdas, erige-se um monumento ao vazio, representante anódino do mundo contemporâneo. A ausência de padrões comportamentais fixos e perenes faz com que as personagens representem um mundo outro, onde as referências, que se fizeram presentes no último século, deixaram de ser válidas ou validadas por um discurso envelhecido. O que a narrativa busca compreender é essa lacuna entre o passado e o presente, que não mais se codifica em uma linguagem unívoca.

Tal compreensão, como se disse, se dá pelo tom trágico em que mergulham as personagens. O coro, que ronda o filme a ser filmado, é, entretanto, inútil. As referências da tragédia grega se perdem na mesma prefiguração do vazio que ronda a existência de ambos. O coro dos cidadãos que, em torno dos tiranos destronados, busca identidade própria também não a encontra. Não mais a voz da polis se faz ouvir através dele. Ouve-se o silêncio povoado de vozes sem retorno.

Como nos quadros de Lucien Freud, as personagens se tornam corpos que vagam entre os espaços definidos por um mundo que não mais reconhecem; mundo familiar e estranho e, ao mesmo tempo, o templo-mundo que permite que se olhe em torno e ainda se veja, mesmo que apenas, a desconstrução metódica de si mesmo.

O livro, construído em pequenas narrativas – bolsões unificados pela constante presença do narrador que conduz todas as tramas – dá a medida da diversidade das possibilidades e a inevitável impossibilidade de, seja o narrador, antes entronizado em seu posto inquestionável, seja as personagens por ele escritas, encontrar mesmo qualquer sombra que possa apaziguar a finitude material a que se está preso. Tudo se perde, tudo termina e não resta sequer o consolo de sentir-se vivo.

A partir desta finitude – sem metafísicas – Um romance russo analisa as angústias com que a sociedade contemporânea convive; tal presença, entretanto, não traz a marca do queixume ou do saudosismo, apenas percebe que desde sempre a finitude se instaurou nos objetos que os homens são.