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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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24/6/2009

OPES – Série Djanira

Se eu fosse o Dr. Hannibal Lecter, pedaços do trombonista da Orquestra Petrobrás Sinfônica seriam servidos em um banquete, acompanhado de boas garrafas de Pétrus.

O programa foi um pouco estranho. Ravel, Bartók, Stravinsky, Ripper. Um contemporâneo, um impressionista, um moderno e um moderníssimo. O que esperávamos ouvir? Música moderna, é claro!

Todo o programa foi constituído de pequenas suítes: “Le Tombeau de Couperin“, “Danças Romenas”, “Suíte Pulcinella” e “O Rio São Francisco – Imagem Sinfônica”. Só que nada aqui é realmente “moderno”.

O Ravel é uma suíte delicada, com timbres sutilmente construídos e sistematicamente assassinados pelo péssimo naipe de metais da OPES. O Tombeau de Couperin é uma obra originalmente pra piano, composta entre 1914 e 1917 e orquestrada em 1919. São seis peças menores, cada uma dedicada a um amigo falecido de Ravel (por isso “Le Tombeau“) e brincando com o estilo barroco francês (por isso “de Couperin“). A orquestração é para pequena orquestra e exclui duas peças do original, a Fuga e a Toccata. Foram feitas orquestrações posteriores (não de Ravel) para a Fuga e a Toccata, mas exigem uma orquestra maior. A execução foi competente, a menos dos metais assassinos. Passável – os esforços do excelente solista Carlos Prazeres para salvar a obra não foram totalmente em vão.

O Bartók é uma obra mais romântica do que qualquer outra coisa, salvo a última dança, marcadamente modal. Não há muito a se dizer, foi bem tocada, foi bonita, e pronto. Nada de menos, nada de mais.

O Stravinsky foi uma tragédia total. A Suíte Pulcinella é da fase neoclássica de Stravinsky, e é necessária uma grande competência artística e técnica para que ela seja o que de fato é: uma obra maravilhosa. Não sei se foi incompetência do maestro ou do naipe de metais, mas aquilo me pareceu antes um Handel alcoolizado do que um Stravinsky de respeito. Aqui deveríamos ter percebido todo o conhecimento que Stravinsky tinha da música do passado, aliado a uma técnica de composição primorosa, com sutis, sutilíssimos, toques modernos: uma terminação que se repete, um timbre percutido, uma intenção exótica. Sugiro aos metais da OPES que estudem escalas. Não vou falar da afinação nem de precisão rítmica porque isso é higiene pessoal, e teoricamente uma orquestra que tem a cara de se apresentar e cobrar ingresso por isso tem que ser, no mínimo, afinada e saber, no mínimo, contar os tempos. Que Stravinsky é difícil eu sei, mas se alguém se aventura a tocá-lo, não pode fazê-lo pela metade.

O Ripper é uma bela obra, afinal. Foi a única obra dignamente moderna da noite, o que não pode ter sido por acaso, mas um programa bem escolhido e posto na ordem certa é metade da graça de um concerto. O declínio do hábito de ouvir música ao vivo, em salas de concerto, não se deve somente à técnica de gravação que já é quase satisfatória, com seu som cristalino, seus engenheiros de som geniais e a possibilidade de apagar qualquer erro. Parte desse hábito se perdeu devido à incompetência de quem escolhe os programas e a ordem em que são executados. Mas desse problema esse concerto passou longe.

“O Rio São Francisco” é um belo poema sinfônico, moderno e brasileiro, de constituição rítmica robusta e sofisticada. Tem belas melodias e é realmente envolvente e profundo. Gostaria que fosse uma obra mais tocada. Gostaria ainda mais que fosse incluída a música contemporânea nos programas de concerto com maior freqüência. Ano passado eu assisti QUATRO VEZES o Concerto Nº1 de Tchaikovsky, no mesmo lugar. Nada contra esse concerto, que é uma obra maravilhosa, mas porque não tocar coisas diferentes, de vez em quando? Eu tenho a nítida impressão de que as pessoas não tem a mínima idéia da quantidade de obras maravilhosas, tão maravilhosas quanto as obras mais ‘populares’, que são pouquíssimo tocadas.

Falta que as pessoas percam o ‘medo’ de música moderna e contemporânea e apreciem sem preconceito.

Existe, sim, música contemporânea audível e digerível, e, melhor ainda, brasileira, como Ripper, Krieger, Ronaldo Miranda.

Agradeço ao Ripper pela experiência.




Para ver no youtube: Ravel – Le Tombeau de Couperin – Pamela Ross, piano (parte 1 e parte 2)

 


Pedro Taam é pianista e estudante de Física Médica.