Alejandra Icaza
No release, disseram que a pintura de Alejandra Icaza (Galeria Fortes Vilaça), continha referência a Matisse. Fui lá ver.
Meu interesse não era exatamente Matisse, mas o que ele fazia quando havia guerra. Viveu muito. Pegou as duas guerras mundiais. Assim que a coisa estourava, ele ia para a costa mediterrânea e lá ficava, desenhando florzinha. Eu já soube quantos desenhos de florzinha ele fez, não sei mais. Centenas. Todos iguais. Durante as guerras ele pintava também. A vista da janela, o piano, a mulher dele nua, e mais florzinhas.
Acho meio fascinante isso, um cara ficar fazendo florzinha com a carnificina comendo solta, ao lado.
E como acho que também estamos em uma espécie de guerra, quis ver as florzinhas de Icaza.
De cara, vi uma diferença. Icaza usa um processo de chegar na cor, que foi o processo tradicional, empregado durante séculos pela arte representativa européia. Você parte de um valor médio qualquer e vai “puxando” para cima e para baixo, quer dizer, para a luz e para a sombra, até chegar no maior valor possível de cor – e de contraste – para aquela composição. Raramente você chega ao branco puro ou ao negro puro, considerados “becos sem saída” do jogo de cor. Icaza também não chega. Quer dizer, chega, mas tem um truque para conseguir uma sobrevida a esse fim de caminho. Para estender o ápice de luz, ela emprega espelhinhos. Para estender o ápice da sombra, ela arranha a superfície da tela com uma ponta seca. Ou seja, para a luz, ela diz: tem mais luz, muito mais, fora da tela. Para a sombra, ela diz: tem mais camadas, muito mais, atrás do fundo absoluto.
Matisse não partia dos valores neutros. Pelo contrário, usava alegremente vermelhos e verdes como ponto de partida, com pretos e brancos tão achatados quanto todo o resto, em suas superfícies coloridas.
Em Icaza as camadas são mais aparentes. As que se acumulam, de tinta ou colagem, e as que vão para trás, com o furo do estilete ou ponta seca. As camadas não formam uma profundidade espacial. Formam um registro temporal. Comecei aqui, segui, pus mais isso, furei.
Mas florzinhas todas elas são. E Icaza, tanto quanto Matisse, não está preocupada com elas. É a feitura o que parece atrair ambos. É a ação de formar sinuosidades sobrepostas. A alegria de passar o pincel (ou, nas obras em papel, o grafismo preto do nanquim ou do lápis), ir esfregando-o contra a tela. Florzinhas são. Só mais um tapa na cara das guerras. Poderiam não ser. Em algumas das obras, a artista parece parar antes dessa caracterização, com telas sem título.
As que fotografei tinham título: Vegetalia, Japanese flowers e Tomates de mar. Todas feitas nesse ano de 2009, pós-crise, pré sabe-se lá o quê, e na guerra perene que é a nossa na contemporaneidade.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.






























