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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

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6/7/2009

18º Encontro de Artes de Atibaia

Tenho prazeres secretos. Um deles é quando vou a coletivas de qualquer tipo – bienais, festivais e outros ais. Fico descobrindo elos a ligar os artistas. Inventando, aliás. Porque eu não precisaria descobrir nada, elos em geral me são berrados na cara. Aqueles artistas estão juntos porque têm mais ou menos a mesma idade (“novíssima geração”), se debruçaram sobre um mesmo tema (“arte erótica”) ou são os colegas de FAAP do curador.

No caso do 18o Encontro de Artes de Atibaia, os 35 artistas – de 281 inscritos – foram selecionados por um júri (Maria de Fátima Couto, Renata Maia Zago e Sylvia Furegatti).

Marta Masiero - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Eu pensava em Pina Bausch, morta havia poucos dias. Pensava em como ela, formada em balé clássico, havia mostrado a impossibilidade expressiva do balé clássico. Em seus movimentos truncados bruscamente, em suas repetições maníacas de detalhes de posicionamentos tradicionais, ela dizia: não dá mais. E fazia isso tão bem que entrava em contradição: o não dá mais (para exprimir algo com o corpo humano a partir de uma técnica tradicional) era expressivíssimo.

Daí entrei no Centro de Convenções de Atibaia procurando corpos humanos que fossem mais ou menos realistas, que estivessem lá para exprimir algo que não é mais expressível. E, como sempre que você procura algo que quer encontrar, acaba achando.

Bárbara Schall (de Nova Lima) fotografa ela mesma submersa, e o líquido a desfaz. O título também é bom: “Sobre o peso do meu corpo“. Poderia completar: como me representar a partir do peso da representação? Só me desmanchando.

Gilio Mialichi - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Gilio Mialichi (Limeira) faz bonequinhos em uma linha frágil, hesitante, usando os cantos de uns papéis que já viram dias melhores. É um tipo de desenho que já foi considerado “feminino” no século passado e que hoje é considerado apenas muito bom. Ou porque o mundo se tornou todo ele mais frágil, ou porque “feminino” não quer dizer mais nada, ou ambos.

Nessa mesma categoria de desenho frágil-forte estão muitos artistas da mostra. Paula Ordonhes (São Paulo) com seu “Paliativos“, também um bom nome; Raquel Lima (Porto Alegre), que costura – com linha de sutura cirúrgica – suas representações em estado terminal; Flavia Tonelli (Campinas), em quadrinhos de composição impecável mostrando cantos de paredes, fins de corredor. E Bia Bittencourt, Carla Chaim e Marlene Stam (todas de São Paulo). Stam faz com que paredes se tornem vivas apenas através de pregos. Uma vida descoberta pelo negativo, pelo ferimento.

Vitor Mizael - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E, parecido mas diferente, Vitor Mizael (São Paulo). Eu já havia encontrado, e gostado, desse artista no XII Salão Paulista de Arte, ano passado. Faz roupas, em geral camisas sociais masculinas, sem ninguém dentro. Adoro. E ainda escreve umas coisas que ninguém lê. Então, não só não tem ninguém, como esse ninguém escreve coisas que ninguém lê. É muito bom.

Ivana Soares (Niterói) apresenta documentos de identidade velhos ao lado de fotos velhas. Nem vou explicar a força de uma apresentação que parece só ser possível em um passado longínquo.

Jaqueline de Jesus - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Jaqueline de Jesus (Atibaia) fala sobre estar viva e sobre uma “calma que não condiz com a nossa pressa”. E prova. Sua instalação de parede é feita de forma lenta, letra por letra.

Leandro Figueiredo (Sete Lagoas) não faz pessoas. Não chega lá. Faz os instrumentos que fariam ou desfariam pessoas. Sua água forte representa um esmeril, uma máquina de triturar, uma anunciação.

Marcela Tiboni (São Paulo) como que desiste da representação contemporânea e representa a representação da época em que isso era possível. Em “Meus mitos” há fotos de fotos, de pinturas famosas, antigas.

Maringelli - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

A figura humana na xilogravura de Maringelli (São Paulo) reencena uma dramaticidade suja, antiga, de textura pesada. Uma indignação puxada da memória, atuada mais do que vivida. Quase uma saudade da época em que vivíamos.

Matias Picón - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Matias Picón – que já fez ponte em exposições com artistas uruguaios – faz colagens imensas, com letras, formas de bichos, cores, tudo misturado, ei, aquilo lá é uma silhueta humana? Não.

Nilson Sato (São Paulo) apresentou um trítico: nos dois primeiros painéis, pingos de tinta; no terceiro, uma velhinha olhando. Parecia meu retrato. Eu (ok, um pouco mais velhinha), olhando um festival de arte e vendo corpos humanos em pingos de tinta.

Angella Conte - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

Pois os vi mesmo nas bacias boiando no lago do parque da cidade. Angella Conte (São Paulo) fez uma intervenção em que domestica (no sentido de trazer para a esfera doméstica) a fantasia de “natureza” do parque. Bem bom. O homem não tem uma existência que seja representável claramente. Ok. Mas a natureza também não. Precisa de aspas.

Jô Barban - fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

E também vi o preto de Jô Barban. Pois o preto não é bem preto. Olhei bem. Cheguei bem perto. No tato dá para perceber. Uma textura aqui, outra ali. E quando a luz bate, e se for a luz certa, dá para ver que há vida lá, no preto.

Bebaprafrente (um nome bossudo de dois artistas paulistas, Bruno Baptistelli e Gustavo Rossini) traz o cenário como impedimento. No salão da exposição apenas o registro de suas intervenções. Uma escada interrompida; restos de construção colocados em pé, cortantes; fios elétricos no meio do caminho. Um não-ir prafrente, bebendo ou não.

Evandro Prado foi muito admirado. Pessoas faziam oh! frente às suas obras. Já eu, vi lá uma ironia. São imagens em grandes dimensões do barroco brasileiro (um cristo, umas sancas). As imagens são feitas por oxidação. O barroco usou ouro, metal incorruptível (daí dentes e alquimia, igualmente). Evandro Prado faz suas cópias barrocas através de uma corrupção, a ferrugem. Ataca, assim, a noção do sagrado, do perene. Fala de um fim.

Das outras obras expostas no Festival, não gostei. Seja porque mostram uma sedução por jogos geométricos de um formalismo em que não acredito, seja porque me pareceram apenas brincadeiras divertidas. Ou foi porque ao vê-los não os vi, distraída com a Pina Bausch.

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.