Adriano Casanova
Adriano Casanova, curador da Galeria Baró Cruz, apresentou mais do que uma exposição de vídeos/fotos. Redefiniu o que é uma galeria de arte em época de artes não vendáveis. E disponíveis – ainda mais no caso de vídeos e fotos – na internet para quem quiser.
Casanova, na Vídeo in foco / Foto in foco apresenta um pensamento, convida para uma discussão. A galeria de arte, ao contrário da internet, passa a ser um local de pensamento. Aqui, discute-se a divisão entre os que pensam a imagem a partir de outra imagem, uma “cena primitiva” por assim dizer, e os que tentam inseri-la em algum sistema.
Ao misturar vídeos e fotos, ambos com temas e processos parecidos, a exposição põe na mesa o processo de construção individual do que é visto. Não se trata da velha teoria freudiana de que você só consegue ver a partir de um acervo individual, a partir de um desejo, e dentro de suas limitações culturais. O que está em jogo é o depois. Uma vez apreendida a imagem – com todos os limites e liberdades de cada um, como você a classifica, em qual ponto da tensão entre “leis gerais” e “singularidades” você tentará arquivá-la? Aquela imagem é representante de alguma “cena primitiva” que foi presentificada pelo artista ou por você? Ou seu movimento se encaixa em alguma sistematização?
Seja com cenas (a imagem parada, mais propícia a produzir “essências”) ou movimentos (mais propícios a produzir sistemas de construção), você estará imerso no esporte preferido dos da nossa espécie, o de achar significado. Não qualquer significado. Mas um que ultrapasse os componentes da imagem; que se mantenha, uma vez repetidas suas condições de produção; e que possa ter uma “história”, ou seja, um significado que tenha já se iniciado em um “antes”.
Ou, terceira possibilidade. Você entende o mundo como uma sopa. Tensões que explodem em borbulhas – que são eu e você e mais eus e vocês. Tensões. Só tensões.
Cristiano Lenhardt (Brasil), logo perto da entrada, chega nisso de cara. Seu vídeo, com dois personagens, foi feito com stop motion. Na verdade são imagens paradas que dão a impressão de movimento. O título Retratante e retratado também mostra sua desconfiança em relação a definições, pois os dois papéis se alternam entre um e outro. E, o que mais gosto, a tentativa de comunicação dos personagens se dá por flashes, obturadores, disparadores, lentes. Quer dizer, para inventar cenas ou sistemas só temos, como matéria prima, a imagem da imagem. Quer dizer, estamos mal.
Toby Christian (Inglaterra) e Roberto Bellini (Brasil) – um o contrário do outro – são mais dois que vão direto ao ponto. O Throwing/Catching é de uma simpleza de dar gosto. Tela em branco. E, muito rápido, tão rápido que nem dá para ver, passa algo. Acho que uma pedra. Pedradas que você nem vê de onde veio. E a troco de nada, sem explicação. O Dark/Escuro é o igual-contrário. Tela escura. De vez em quando um flash de luz e uma cena que você não consegue ver. Detalhe: você escuta sons indistintos e, entre eles, o clic do flash. O que te faz ficar muito próximo. Se você chega para trás com a pedra, agora você tem vontade de chegar para trás porque tem alguém com poder de acender uma luz, sem explicação, e esse alguém não é você.
Mônica Espinosa (México) ocupa toda a parede dos fundos da galeria. Seu vídeo, Six minutes, é ela sentada em um banco pensando em seus amigos, por seis minutos. Ela não se mexe quase. O que se mexe é o que não interessa: alguém passa de bicicleta, o vento balança folhas. O movimento sem finalidade narrativa.
Enrique Radigales (Espanha) tem o vídeo mais longo da mostra e o mais explícito, na discussão sobre imagens paradas, em movimento, imagens de imagens e o que vemos de tudo isso. Filmou seu ateliê. A luz entra pela janela e vai mudando a imagem dos objetos. A mesma coisa com os desenhos dos objetos.
Flamínio Jallageas (Brasil) mostra uma sala de jantar que não é uma sala de jantar. É uma projeção. Durante essa projeção, começam a sumir móveis, objetos, sem que você perceba o momento exato do sumiço. Lá pelas tantas, passa uma pessoa que não está na projeção. Está na frente da projeção, interrompe a projeção. Ela fecha uma porta da sala de jantar. E eu, na frente dessa pessoa, construo então uma narrativa a respeito de imagens que, no entanto, sumiram na minha frente sem eu perceber.
No andar de cima da galeria estavam as fotos. Ou quase-fotos.
Ana Teixeira (Brasil) faz uma sequência. Um corredor de hospital que vai ficando vazio à medida que a noite chega. Lina Kim (Brasil) mostra cenas tropicais. Verdade? Não. É uma praia artificial, vegetação em estufa. Você não vê o que você vê. A manteiga de Jorge Menna Barreto é uma realidade que derrete na sua frente. A Série Pantone de Erica Bohm (Argentina) uma paisagem que mal se vê. Daniel Athayde (Brasil) traz naturezas para lá de mortas: legumes murchos, nuggets velhos, balas frutella desembrulhadas. E Michael Wesely (Alemanha) fotografa uma paisagem em movimento. O resultado é que você só vê, das coisas que passaram, linhas horizontais. As coisas foram embora, só deixaram um rastro – inventado por você.
Lista completa dos artistas:
Camila Esposati, Cristiano Lenhardt, Flaminio Jallageas, Roberto Bellini, Raquel Kogan & Lea Van Steen, Ana Teixeira, Claudia Jaguaribe, Daniel Athayde, Gui Mohallem, Jorge Menna Barreto, Lina Kim, Laura Erber (Brasil), Cristian Segura, Roberto Jacoby, Alejandro Chaskielberg, Erica Bohm, Nicola Costantino (Argentina), Wilfredo Prieto (Cuba), Michael Wesely (Alemanha), Toby Christian (Inglaterra), Titouan Lamazou (França) Enrique Radigales (Espanha) e Monica Espinosa (México).
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.








































