Jéremy Planchon
Não entendi.
Percorri a orla do Rio e, de tantos em tantos passos, lá estavam as estruturas de ferro com painéis enormes (10 metros de altura, quatro de largura, com quatro lados cada uma) mostrando, mostrando o quê? Pois é. Índios, negros, garotos de rua, imitação de pixação, ícones pop, tudo num clima assim, politicamente correto, assuntos da atualidade, sabe como é?
A praia do Rio tem estrutura visual de linhas verticais e horizontais. Você olha e vê vários retângulos (os edifícios) em pé. E tem o mar, deitado. Os painéis repetem essa estrutura. Aí você pensa: ah sim, integração. Mas não. As figuras são enormes, te afrontam em seu tamanho sobre-humano. E me incomodou a tipificação. Imitação de pixação?! Índio?!
Me passou haver uma necessidade de classificar, explicar. Ó deus, alguém avisa que já tentaram antes e não deu certo?
Depois eu pensei: não, sua idiota, é que a curadoria quis levar para a orla, zona nobre da cidade, imagens de sua população mais pobre. Mas só se o curador Jéremy Planchon não conhecer nada da cidade. O Rio tem essa enorme – e talvez única- vantagem: morros e bairros ricos não são separados por quilômetros de distância. Pelo contrário.
Mas Planchon conhece a cidade. É francês radicado no Rio, onde tem uma agência de fotos para fins publicitários. E, bingo, lá está a explicação. As imagens tem aquele acabamento perfeito da imagem publicitária. Repito: imitação de pixação!!! Perfeitinha!!!!
Trata-se pois de publicidade. Vendendo o quê? O racionalismo francês, ora.
Bem, boa sorte.
Os artistas: Blek le Rat faz pixação em Paris e se inspira em personagens dos escritores Françoise Sagan e Paul Eluard (!!!! – e vou parar com os pontos de exclamação para não quebrar a tecla do meu note). Willy Bihoreau é ecochato francês (desculpe o pleonasmo) e faz denúncias. Jerk 45 sonha com um mundo melhor. Ned também. Stéphane Carricondo gosta de analisar seu “outro” que, no caso, somos nós, os brasileiros. Vincent Rosenblatt também gosta. O “outro” dele preferido é o frequentador de baile funk. Ele acha fascinante. Mambo é designer e, para quem me conhece, não preciso dizer mais nada.
São 20 painéis. Um dia eles somem.
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.







































