Lindos Dias
A Cia Teatral Primeiros Sintomas (Portugal – Lisboa) trouxe para a segunda edição do FESTLIP, sob a direção de Bruno Bravo, “Lindos Dias” (Happy Days), um texto de Samuel Beckett reconhecido pela dificuldade de leitura teatral e foi isso mesmo que aconteceu: vimos a dificuldade da montagem desse texto. Aparentemente a Companhia caiu na própria armadilha. Uma pena.
A história de Winnie e Willie baseia-se praticamente no tédio e na falta de diálogo do casal, que acaba construindo quase um monólogo por parte da personagem feminina. Winnie encontra-se enterrada até a cintura e depois até o pescoço num monte, que talvez represente a realidade que a suga, que a imobiliza.
Enquanto ela está enterrada na sua vida entediante, no seu monótono casamento, Willie, o marido, na maior parte do tempo, encontra-se atrás do monte, provavelmente dentro de um buraco, fora do nosso campo de visão e mal pronuncia algumas palavras.
O cenário, de Stephane Alberto, é composto por um painel, representando o céu azul e o tal monte, em que Winnie se encontra enterrada, é coberto por grama verde e algumas flores. Nesse cenário, se passam os dias de tédio, que a personagem atravessa evocando memórias, se ocupando de atos corriqueiros e procurando utensÃlios diversos em sua bolsa.
Willie, pode até ser uma figura secundária, pode até ser um marido que não a escuta, mas ela precisa da presença dele porque não se agüenta sozinha. Ela sabe que ele está ali, e, por mais que ele não a ouça ou dialogue, isto lhe basta. Tudo parece estranho, sem mudanças e cada vez mais estranho, segundo ela, que fica falando sozinha, à s vezes, refletindo em voz alta, à s vezes, dissertando sobre coisas do dia a dia, como pentear o cabelo, e comemora quando o marido lhe dirige algumas mÃseras palavras. Fica esperando a hora de dormir, sem nada a fazer: “Mais um dia, nem melhor nem pior, sem dor quase nenhuma”, é a sua frase marcante.
Nessa montagem, os sÃmbolos não são bem explorados. Trata-se de um espetáculo lento, com um texto difÃcil. Praticamente uma leitura. Complicado dizer isso: a peça cura a insônia de qualquer um. A única coisa que se destaca é a interpretação da atriz, que se baseou praticamente na expressão facial e executou bem a tarefa do quase-monólogo. Foi uma das poucas vezes que senti vontade de ir embora durante o espetáculo. Mas, por respeito, fiquei por lá, assistindo alguns espectadores irem, arrependida de ter feito uma má escolha.
Ficha técnica
Texto: Samuel Beckett
Tradução texto: João Paulo Esteves da Silva
Direção: Bruno Bravo
O Grupo Primeiros Sintomas (Portugal – Lisboa) é uma associação cultural que funciona segundo princÃpios semelhantes a uma companhia de teatro pela recorrência da equipe que constitui a maior parte dos trabalhos e espetáculos realizados. A produção sustenta os motivos artÃsticos a impulsionarem um trabalho continuado com os mesmos atores, cenógrafo, figurinista e músico, no sentido não só da solidificação de uma linguagem, mas da partilha de experiências num crescimento coletivo, de maneira a que cada área seja ambiciosa no seu território.
Elenco: Raquel Dias e Gonçalo Amorim
Apoio à Dramaturgia: Miguel Castro Caldas
Cenário: Stephane Alberto
Figurinos: Ana Teresa Castelo
Assistente de direção: Ricardo Neves-Neves
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Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.







































