Não vi toda a edição da Verbo. Não deu.
Como em 2008, agora também o festival anual de performances, organizado pela Galeria Vermelho, contou com uma discussão teórica. Um dos palestrantes a que assisti foi Renato Cymbalista, arquiteto e urbanista da USP. Em outro dia, a convidada foi Cristiane Paoli Quito, coreógrafa do grupo Nova Dança.
Falaram sobre as margens da performance, seus limites – ou melhor, sua permeabilidade.
Os dois passaram batido pela definição de performance. Não vou me dar a esse luxo. Mesmo com seus cem aninhos de existência, acho que ainda tem de explicar. Já vi muita gente olhar aquilo com cara perplexa.
Performance transforma um espaço através de uma ação corporal. Pode ser espaço privado ou público. Físico ou apenas simbólico. Você constrói sua relação com o espaço de uma determinada maneira e vem uma performance para obrigar você a mudar tudo. Como moramos em cidade, que é coisa que muda todos os dias, a performance acaba servindo de exercício para que se possa aguentar um cotidiano que não permite enrijecimentos, sob pena de te expulsar da vida. Ou de casa.
Mais algumas coisas. Performance pode ser ‘site specific’ – quando a modificação é dirigida a um espaço determinado. Performance transforma fato em acontecimento. Performance exibe a ficcionalização que existe em qualquer construção do ‘real’. Performance colabora com o tensionamento inerente à construção ininterrupta do urbano.
A partir daí, Renato Cymbalista divertiu-se muito ao demonstrar que, ao lado de artistas performáticos, outras performances aconteciam no tecido urbano. Começou falando que as cidades medievais se formavam em volta das igrejas – local em que se enterravam os mortos. E que, aos poucos, os mortos foram sendo expulsos para a periferia. Hoje só mortos especiais podem ‘morar’ dentro das cidades. E, qual artistas performáticos, modificam o espaço em seu entorno para aqueles que os cultuam. Deu como exemplo o túmulo do Frei Galvão. Foi divertido ouvir os performáticos da mesa (Lynn Harris do Unreleased Project; Cristiana Ceschi e Beatrice Carvalho, do As routes) se depararem com essa concorrência vinda do além.
Cristiane Paoli Quito mostrou um vídeo de seu grupo. Falou sobre a improvisação teatral e suas falácias. O improvisador (uma das margens da performance) improvisa sempre pouco, pois já carrega em si um acervo de proto-narrativas. Falou mais: que improvisar é primeiro construir um código, para depois rompê-lo. Disse que o que faz são espetáculo abertos em tempo real. E que o que almeja é palco e mentes vazios para que o espaço fale. E falou uma frase que eu tomei nota: a narrativa é um aprisionamento dentro de um fato.
O fato é amplo e amorfo. E você escolhe se fechar em uma das linhas possíveis. Gostei. Me fez pensar que as possibilidades trazidas à tona por uma performance já estavam por lá. E o artista apenas pescou aquela, em vez de alguma outra.
Agora a prática.
A apresentação Paraphernalia de Nancy Mauro-Flude é chatíssima e excelente. A artista passa um tempo enorme mexendo em osciladores de frequência. Isso gera aquele ruído exasperante de estática. Há vários no palco. Depois de muuiiiito tempo, ela vai para o microfone e interpreta a música The machines (de Jesse Darlin). Enquanto ela lida com os osciladores é uma pessoa. Quando ela canta, é robô. No palco, além dos osciladores, só a bolsinha de paetê vermelho da artista. É a única coisa que não emite som. Muda, a bolsinha grita sua automatização de um feminino estereotipado.
Em Body hit, o holandês Anno Dijkstra fica nu no palco e, ao apertar um botãozinho, leva um ‘tiro’ de tinta dourada. Os pentelhos que já eram louros ficam cobertos de tinta dourada. Uma idéia para lá de estrangeira da nossa cotidiana e tropical violência urbana.
Los Torreznos são a dupla espanhola Rafael Lamata e Jaime Vallaure. O que eles fazem é falar. As palavras são as mais banais. O jeito com que falam, não. Na apresentação El dinero, citam nomes de multinacionais e seu patrimônio declarado. Tudo está no jeito como dizem ‘millones de dólares’. Em outra, da qual vi apenas o vídeo, falam o nome dos cargos públicos: deputado, prefeito, governador. Falam devagar, com um tom de profunda reverência. Só que vão subindo de posto até chegar a imperador e, depois, faraó. Você rola de rir. O conceito é profundamente político. Mas não são panfletários. Como disseram: o problema de fazer arte política é a polissemia da arte. Se você fecha em um só significado, adeus arte. Eles não fecham. Se fechassem, seriam comediantes. Como não fecham, são performáticos: fica no ar a demonstração de que uma mesma palavra pode significar coisas bem diferentes, a partir do jeito como é dita.
Na saída, a mesma coisa só que diferente. Depois da porta, A Maldição de Ford, de Daniel Fagundes. Regente de uma orquestra de carros, ele comanda uma harmonia (?) de buzinas. Há uma ‘percussão’ feita de ronco dos motores. E há o solo de uma soprano que, na direção de seu carro, vai cantando ópera até apenas berrar, histérica, presa no ‘engarrafamento’.
Como sempre, muito bom. Que pena que não vi tudo.



