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Vi a exposição da Sophie Calle e li um de seus livros. Esse texto é sobre ambos. E é sobre o que me parece ser uma violência epistemológica.

Douleur exquise, de Sophie Calle, Éditions Actes Sud, 2003A exposição é Cuide de você/Prenez soin de vous, no Sesc-Pompéia.

O livro é Douleur exquise, Éditions Actes Sud, 2003.

Na exposição, ela apresenta 107 reações de outras pessoas a um e-mail de rompimento de seu amante.

No livro, ela apresenta 99 relatos de dor de outras pessoas, que se contrapõem à dor de um telefonema de rompimento de seu amante (outro amante).

Na exposição, a voz do outro é só de mulheres – identificadas e com suas profissões indicadas. O amante também foi identificado. É o escritor Grégoire Bouillier.

No livro, o amante não está identificado e a voz do outro é de homens e mulheres igualmente. Eles também não estão identificados, embora haja fotos de alguns, além de detalhes de suas vidas pessoais. Os relatos “assinados” por Calle, sobre o telefonema de rompimento de seu amante, vêm acompanhados de uma foto do telefone vermelho em que tal telefonema se deu.

Esse livro, sobre esse outro amante, (“M.”), é dedicado ao primeiro amante, Bouillier. Me pareceu um agradecimento e uma homenagem por ele ter-lhe indicado, mesmo contra sua vontade, um caminho artístico, uma receita de sucesso. Esse livro, de todos que ela escreveu, e essa exposição, de todas que fez, estão ligados. São frutos de um mesmo processo.

Esse processo é o de impôr um registro poético autoral sobre a voz do outro. Calle se apropria de um “eu” alheio, oferecendo-o coberto por sua própria estética, sua própria ficcionalização do real. Mas o apresenta como sendo o real. No entanto, como não podia deixar de ser, ela faz uma ressignificação. Pega uma cosmologia alheia e a insere em seu próprio sistema de significação. O problema não está em ela fazer isso. Todos nós, criadores, fazemos igual. O problema é a apresentação dessa voz do outro como sendo real. O que ela nos dá – e essa é a única coisa que ela pode nos dar – é uma verdade sua pessoal. Não é a verdade factual. Ela mente ao dizer que aquele telefone vermelho é o telefone vermelho real em que se deu um telefonema de rompimento (mesmo que seja); ela mente ao dizer que a fulaninha de tal falou tal coisa a respeito do e-mail de rompimento de seu amante (mesmo que tenha falado); ela mente ao dizer que a reprodução fotográfica do e-mail é o e-mail real (embora seja).

Falta sempre o entorno, o contexto, o resto todo do real – inconcebível, inapreensível e incompreensível. Em toda representação artística do real, o real estará ausente. E é por isso mesmo que o representamos e o representamos outra vez. Para dar a ele sentidos. No plural. A obra de arte, para sê-lo, terá de ser polissêmica. E aqui vai mais uma restrição ao trabalho de Calle. Polifonia – ainda mais falsa – não é a mesma coisa que polissemia. Desculpe ser tão banal. É que o engano também é banal.

Agora a questão do poder.

Ao se apropriar da voz do outro – seja esse outro uma das testemunhas de acusação arroladas no livro/exposição/tribunal, sejam os amantes tornados objetos – ela submete a dor do outro à sua própria. Eles vêm em segundo plano.

E essa é exatamente a acusação que Calle faz a seus amantes. Que eles puseram suas dores em primeiro plano, esquecendo a dela. Ela faz o que a eles imputa.


P.S. Na exposição, das 107 mulheres convidadas a dar sua opinião, duas criticaram Calle sobre o uso que ela fez do e-mail.

Sem ser convidada, me ponho como terceira dessa fila.