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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 26, julho & agosto de 2010

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27/7/2009

Análise de uma obra de arte: Os esposos Arnolfini

Artigo originalmente escrito como
trabalho de conclusão do módulo 2
do curso de História da Arte do MASP,
ministrado pelo professor Prof. Renato Brolezzi


PRÓLOGO

Quem pinta com óleo conhece bem o tempo de secagem deste material. Reza a lenda que, dependendo da pincelada, ainda se encontrará tinta fresca séculos depois da camada exterior secar. Quanto mais denso for o suporte, mais tempo leva para a tinta solidificar: telas e papéis são suportes que possibilitam uma secagem mais rápida do que madeira ou pedra, por exemplo.

Ao contrário das tintas solúveis em água, o óleo é uma tinta com muitos solventes não-prejucidiais, como o óleo de linhaça, que torna a tinta mais leve e translúcida sem prejudicar o que já existe na obra (enquanto se adicionarmos água a uma tela de aquarela, uma grande área da obra será modificada, por exemplo).

Por ser uma tinta opaca, podemos também adicionar luz a partes escuras. Das tintas solúveis em água, a única que se aproxima disto é a acrílica, mas ainda assim é necessário aguardar a secagem total e muitas vezes simplesmente não funciona, comprometendo todo o trabalho. Quando a tinta escolhida não é o óleo, precisamos sempre partir do meio-tom, para “descer†ou “subir†a cor conforme a necessidade. Não há esta rigidez no óleo. A tinta a óleo se permite, portanto, correções, ajustes e alterações a posteriori.

Estas características técnicas impõem uma relação específica do pintor com a obra de uma forma geral. O tempo, a estrutura e até mesmo a composição (já que podemos colocar claro sobre escuro) se modificam. Nada se compara ao óleo. É uma tinta com personalidade: é necessário um “pensar o óleo†para que ele resulte em algo concreto.

Hubert Van Eyck (c. 1366–1426), junto com seu irmão mais novo Jan (1395-1441), inventou a técnica da pintura a óleo, em Flandres. A invenção teve um impacto tão grande nas artes que o braço direito de Hubert foi preservado  na Catedral de São Bravo como uma relíquia sagrada. A tinta a óleo já era conhecida em Flandres mas foram os irmãos Van Eyck que desenvolveram uma secagem mais rápida  (muito mais demorada do que temos hoje nos tubos prontos, entretanto), tornando a técnica viável para os artistas.

Tudo que vem depois, incluindo os sfumatos de Leonardo Da Vinci e seus contemporâneos, só foi possível graças a esta invenção. Considerando que a tinta a óleo se preserva melhor que as de solução aquosa, não é exagero afirmar que grande parte das informações que temos hoje sobre tempos anteriores só chegou até nós por causa da tinta a óleo e dos irmãos Van Eyck. A importância disso transcende a história da arte e tem reflexos vitais em como entendemos nossa cultura e sociedade e por conseqüência o modo como desenhamos nosso futuro.

O PERÃODO

Estamos agora no Norte da Europa, em Flandres, durante o século XV, onde acontece o Renascimento flamengo. Não é Renascimento florentino, é algo com uma identidade toda própria. Esta região foi absurdamente rica do século XIII até o XVI, por causa do comércio marítimo, e tinha uma marinha mercante muito poderosa. Suas principais cidades eram Bruxelas, Antuérpia, Gent e Brugge.

São católicos mas no século XVI convertem-se protestantes. É um tipo de catolicismo muito diferente do italiano e é ligado aos nórdicos, aos bárbaros. A religião é mais mística, mais contida. Trata-se de uma cultura radicalmente baseada no mundo burguês.

Em Flandres acontece o gótico tardio, o gótico flamboyant, internacional.

A arte era a mais analítica possível (o Renascimento florentino é o mais sintético possível). Na Itália a realidade está na alegoria, na interpretação mais filosófica. Em Flandres há uma imersão do aqui e agora, a arte é antropológica.

JAN VAN EYCK

Karel van Mander escreveu o livro dos artistas nórdicos (Het schilder-boeck, 1603), inspirando-se no estilo de biografia de Vasari (1550). Neste livro, Jan Van Eyck é retratado como um grande alquimista, aquele que transmutou a matéria, por causa de sua técnica. Os artistas até bem pouco tempo atrás preparavam suas tintas e materiais, não os compravam em tubos ou em papelarias. Era necessário conhecimento em química além da técnica artística em si. Antes dos irmãos Van Eyck, o meio de solução era o ovo (têmpera) , que secava muito depressa. Ao dissolver seus pigmentos em óleo, os Van Eyck conseguiram manipulá-los por mais tempo e com maior precisão.

“Aqui  na verdade não há paralelo com os mestres do início da Renascença na Itália, que nunca abandonaram as tradições da arte grega e romana. Lembramos que os antigos ‘idealizaram’ a figura humana em obras como a Vênus de Milo ou o Apolo de Belvedere. Jan van Eyck não teria nada disso. Ele deve ter posto modelos nus à sua frente e pintou-os tão fielmente, que gerações mais tardias ficaram um tanto chocadas com tanta honestidade. Não que o artista não tenha olhos para a beleza.†– GOMBRICH, E. H.; História da Arte; tradução Ãlvaro Cabral, Rio de Janeiro: LTC, 2008.

A OBRA

Os esposos Arnolfini, Jan Van Eyck, 1434, London National Gallery, óleo sobre madeira (carvalho)

Os esposos Arnolfini, Jan Van Eyck, 1434, London National Gallery, óleo sobre madeira (carvalho).

A obra retrata um rico casal italiano, Giovanni Arnolfini e sua esposa Giovanna Cenami. Arnolfini já era um rico comerciante de tecidos, da cidade de Lucca (perto de Florença), antes de mudar-se para Brugge com o propósito de expandir os negócios da família. A mudança foi um sucesso e o casal incorporou os valores nórdicos.

Os esposos Arnolfini é um retrato encomendado. A obra mostra diversos elementos de afirmação de riqueza e importância econômico-social, além do fato de que encomendar um quadro ao grande Van Eyck por si só já era um importante símbolo de prestígio.

A riqueza de detalhes na obra é lendária e deve-se muito à formação de Van Eyck, que, além de pintor, era miniaturista e iluminador de manuscritos . Os pintores holandeses usavam lentes de aumento em seu ofício e Van Eyck era famoso por seu pincel de cerda única, o que só faz aumentar o seu mérito. Não por acaso o microscópio nasce na Holanda.

A obra retrata um quarto de dormir, o mundo privado. De acordo com a ética do catolicismo nórdico é pecado mortal ostentar riqueza em público (base para Lutero, por exemplo). O universo da riqueza e do luxo era restrito ao mundo privado.

ELEMENTOS ICONOGRÃFICOS

Os esposos Arnolfini - detalhe: espelho

Citações encrustadas da Paixão de Cristo na borda do espelho. A imagem do espelho inclui Van Eyck pintando o casal. “Pela primeira vez na história, o artista tornou-se a testemunha ocular perfeita, na mais verdadeira acepção da palavra.†[GOMBRICH, E. H.]

Espelho/vidro era caríssimo e é um importante símbolo de riqueza.

Os esposos Arnolfini - detalhe: assinatura

Assinatura: “Johannes de eyck fuit hic†(Jan van Eyck esteve aqui). Segundo Gombrich, a assinatura pode ter tido uma função de testemunho de um ato solene.

Os esposos Arnolfini - detalhe: azul

O azul era de lápis lazuli, outro símbolo de ostentação da riqueza do casal.

Os esposos Arnolfini - detalhe: penteado

O penteado de Giovanna Cenami era típico da Borgogna e tinha uma armação por dentro para impedir o véu de cair nos olhos. Assim como os tamancos, mostra a adoção dos valores nórdicos pelo casal.

Os esposos Arnolfini - detalhe: vermelho

Vermelho era símbolo de nobreza. O pigmento vermelho custava mais que ouro. Os flamengos são os primeiros piratas do Brasil (pau-brasil), justamente em busca deste pigmento.

O professor Adelino José da Silva d’Azevedo  afirma que é do cinabre que se origina a palavra brasil. Kínnabar era uma palavra celta que, no comércio com os fenícios, designava o tom vermelho de qualquer material. Forma-se da raiz kínn – que traduz a idéia de metálico e de rubro; e da partícula bar – sobre, em cima de, superior. Uma característica do celta era a próclise das partículas, em oposição à ênclise grega. Ou seja, o celta punha as partículas no fim da palavra, ao contrário dos gregos, que a preferiam no meio. Assim, kínnabar corresponde ao barcino, brakino, breazail. Portanto, o cinabre dá nome ao pau-brasil que, por sua vez, dá nome ao país.

Os esposos Arnolfini - detalhe: mão/anel

O fino anel e o gesto de Giovanni Arnolfini querem passar a mensagem “não sou grosseiro†(não era mesmo). Os Arnolfini eram aristocratas burgueses, ganharam dinheiro com o comércio. Justamente por não serem nobres, precisavam afirmar-se como não sendo rudes e sim detentores de refino e cultura.

Os esposos Arnolfini - detalhe: frutas

A maçã tem um significado religioso. De acordo com a mitologia católica, os homens eram desagregados, filhos de Eva, expulsa do paraíso por morder a maçã do pecado. A maçã traz, portanto, a lembrança: “lembra-te que és mortal, que és pecadoâ€.

Não havia laranjas em Flandres, típicas da Sicília e da Espanha. Aqui as limas eram hindus, importadas da Ãndia (fruta exótica). As frutas eram para ser vistas, não para ser comidas. As laranjas eram importadas e envernizadas e deixadas pela casa como símbolo de riqueza.

Os esposos Arnolfini - detalhe: tamancos

Os tamancos, bem como suas vestimentas de uma forma geral, mostram claramente a adaptação do casal italiano emigrante aos costumes flamengos.

Os esposos Arnolfini - detalhe: tecido

Os Arnolfini eram comerciantes de tecido e portanto suas roupas não apenas ostentam riqueza como também narram sua história.

Os esposos Arnolfini - detalhe: mãos

Mãos alongadas, típicas do estilo gótico.

Os esposos Arnolfini - detalhe: cachorrinho

Até o cachorrinho ostenta riqueza (não é um cão de caça).

CONCLUSÃO

O Renascimento flamengo não é subserviente a significados simbólicos e/ou sobrenaturais. Há uma busca pelo retrato, pelo naturalismo. O mundo retratado é real e inclui objetos cotidianos, como mobiliário, roupas e animais domésticos, ainda que providos de significado e propósito. Ao mesmo tempo em que podemos perceber a influência direta do Helenismo em Flandres, é Flandres que influenciará o mundo das artes com seus retratos quase antropológicos e sua técnica revolucionária.

BIBLIOGRAFIA

BECKETT, Wendy; História da Pintura. São Paulo: Ãtica, 1997.

CANTARINO, Geraldo; Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.

CAROL, STRICKLAND e BOSWELL, John. Arte Comentada – Da Pré-História ao Pós-Moderno. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 1999.

GOMBRICH, E. H.; História da Arte; tradução Ãlvaro Cabral, Rio de Janeiro: LTC, 2008.

 


Carolina Vigna-Marú é a editora do Aguarrás, além de ilustradora, designer e diretora de arte.