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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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08/08/2009

Moscou

Quem espera encontrar em Moscou um parentesco com Jogo de Cena, pode tomar um susto. Coutinho, de fato, avança o estudo da percepção do real e da ficção, mas faz isso usando nada menos que As Três Irmãs como base de apoio e quem não conhecer um pouco de Tchékhov vai perder parte da brincadeira.

Em Jogo de Cena havia o conforto. Rostos conhecidos. Dramas individuais contados em uma cadeira. O diálogo se dava entre o espectador e os atores, e o cinema funcionava como limiar da realidade. Uma hora vinha a pergunta “Mesmas histórias, pessoas diferentes. Quem é ator e quem não é?” Havia o clique. Moscou acrescenta um terceiro elemento: o teatro. A fronteira não é mais a tela, é uma imensa área cinzenta disfarçada de bastidores, ora de bastidor do próprio filme, ora de bastidor da peça ensaiada com apoio do Grupo Galpão. Esse espaço de bordas indefinidas funciona como o palco, e aí não tem clique, não tem zona de conforto.

Antes de prosseguir, vale um retorno a Tchékhov. As Três Irmãs conta a história de Olga, Macha e Irina. Presas em uma vida provinciana enfadonha, seu único sonho é voltar para Moscou. Tudo que vem de Moscou lhes interessa como passagem para o passado. Tudo acontecerá ao voltarem para lá, sendo esse lá um ponto qualquer que não o que elas se encontram. É um jogo de futuro e passado e esvaziamento do presente. A busca de um significado para a vida.

Dito isso, a saga de frustração de As Três Irmãs é calcada mais em pensamentos e situações fragmentadas do que numa narrativa lógica. Os diálogos não amarram nem apontam direção, só delineiam um traço geral, o que cairia como uma luva para Eduardo Coutinho.

Há a ilusão de que Moscou é um filme sobre o processo, como Santiago de João Moreira Salles. Não é. Moscou é resultado tanto quanto Império dos Sonhos de David Lynch. Bastidores reais permitem que o espectador perceba a transformação, entenda quem é o ator e o que ele ganha e perde para transformar-se em personagem. Em Moscou, não há contraponto, não há um antes e um depois que componham o significado da cena do meio. É como se a montagem se desse de forma vertical, abandonando a horizontalidade dos quadros. E sem o somatório e a comparação será que há algum significado?

Um filme que se finge de teatro filmado é um aposta arriscada. O silêncio no cinema após a sessão, a cara da platéia e o moço dormindo ao meu lado são evidências disso. Mas não se cresce sem arriscar. E isso vale tanto para o diretor quanto para o espectador.

Quando Coutinho disse em entrevista que depois de ver horas de material gravado não tinha certeza de ter um eixo para o filme. Talvez tivesse razão.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Moscou



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