Diário de um louco
Quando um sapato social de óculos escuros é o chefe de seção do seu trabalho, quando um pincel de gravata borboleta é um criado, quando cinco garrafas plásticas enfiadas numa caixa de sapatos é um cachorro que, além de escrever cartas, é um político notável, quando um regador de plantas coberto por uma estopa é um judeu, e quando você consegue manter um diálogo com todas essas pessoas, você só pode estar louco.
Claudio Tovar encena Diário de um louco, conto de Nikolai Gogol, em curta temporada no Teatro do Leblon, no Rio de Janeiro.
A narrativa que se inicia no dia 3 de outubro, se perde no dia 86 de martubro e termina num dia sem data e sem ano conta a história do funcionário público que foi nomeado rei da Espanha secretamente, uma vez que apenas ele mesmo sabia que havia sido nomeado. A crescente loucura do funcionário público, que inicialmente se revela sob forma de tara pela filha do diretor, é seguida pela obsessão por uma cachorrinha que troca cartas com sua amada, e termina (não termina!) com a secreta nomeação régia.
Ao longo do espetáculo, a metamorfose do personagem, de levemente louco à insanamente fora de si, é sutil, mas agressiva. Alternando temperamentos, o funcionário público – ora delicado, ora hostil – transtornado com a sociedade a sua volta, principalmente no que diz respeito à política, poder e discriminação social, é dominado por um estado de loucura que, aos poucos, o afasta da sociedade.
Trajes sujos e esfarrapados, cenário em tons de bege e de dourado, móveis maltratados, muitas tralhas e personagens coadjuvantes artesanais montados pouco a pouco pelo próprio louco ao longo da narrativa compõem o ambiente que acomoda os pensamentos, os movimentos e as falas confusas e dramáticas do enlouquecido funcionário público.
Com uma incrível naturalidade, o que me faz pensar que todos somos um pouco loucos, Claudio Tovar traz à cena seriedade e drama, conseguindo extrair da trágica vida do personagem, uma essência cômica, mas embalada pela tristeza e pela fragilidade do louco que, incompreendido, sofre, ainda que não tenha consciência do sofrimento pelo qual passa e nem dos motivos pelos quais é rechaçado pelas pessoas a seu redor.
Exemplo da instabilidade de temperamento, da inconsciência e da loucura generalizada que se instaura no homem, é o fechamento da narrativa. Já no hospício, debruçado sobre seu próprio corpo, o louco chora pela mãe, pela condição de órfão, pelo solitário homem que foi e que é. Ao que se segue um abrupto salto, um nariz de palhaço e a alegre exclamação: “O rei da Argélia tem uma verruga no nariz!”.
Com direção de Alexandre Bordallo, o Diário de um louco fica em cartaz até 06 de setembro de 2009, em reapresentação, às quartas e quintas, às 21h. Imperdível!
Teatro do Leblon
Sala Tônia Carrero
Rua Conde Bernadotte, 26. Leblon / RJ
Tel: (21) 25297700
Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.







































