Carol Armstrong
Ligar mulher e água é lugar-comum que encontra desculpas abundantes. Por exemplo na frase: a nossa atual percepção fluida de identidades faz parte de uma grande feminilização do mundo. Em geral concordo. Mas costumo dizer de outro modo. Não é atual. Não para nós. Estávamos, como sempre estivemos, léguas lá na frente, esperando que o resto do povo descobrisse a pólvora. É. Somos fluidos mesmos. Bidu. Nós, mulheres, já sabíamos disso e exercitávamos tal fluidez há muito tempo, desde que começamos a existir, e, justamente, porque não há começo em mecânica dos fluidos, isso quer dizer há muuuito tempo – tanto que vira futuro. Lembre da ameba na sopa de estrelas, lembre de estrelas.
O bom na exposição Onde a água encontra a terra, do MASP, é que a curadoria foi além do lugar comum. O curador da mostra brasileira é Paulo Herkenhoff, que pegou o bonde andando a partir das escolhas feitas por um dos fotógrafos participantes, Carol Armstrong. Um ou outra botou uma pitada de política de gêneros na história e, com isso, escapou dos binarismos prevalentes em discursos quejandos.
Carol Armstrong sai do confronto água x terra de três maneiras. Na série A barragem há a rigidez masculina – com as engrenagens de ferro de uma pequena represa em primeiro plano – a impedir o movimento da água que é apenas uma citação de fundo. É um masculino cansado, esse aqui. A parte dura do tema está esburacada, enferrujada e, principalmente, tem formato circular e é furada. É um masculino que desistiu de ser masculino, e que fica vendo a água passar a seu lado, mansa, é verdade, mas sem parar. O segundo não-confronto – ou confronto já resolvido, posto no passado - é o da série Mar e areia. Não é um mar e uma areia. É tudo embolado, em um coito empapado, de terras que deveriam ter formas nítidas mas que se amoleceram e moles ficaram desde a última maré. Por fim há a série Corpos d’água, que são várias ofélias semi-afogadas a olhar direto para a câmera, irônicas. Zeca Pagodinho, recém-chegado ao bloco da fluidez, acha que é so deixar a vida levar. Shakespeare, mais sábio – ou mais feminino – sabia do que fluidos são capazes.
E aí vem em mais um aspecto dessa mostra, que é a verticalidade aquosa. Explico: água, sim, mulheres de uma certa maneira somos todos, que remédio. Mas pelo menos exigimos a verticalidade.
Entramos nos dois outros fotógrafos da exposição. Os homens Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy.
Fernando Azevedo, na série Union Square, faz com que suas águas reflitam os sólidos. As manchas sem forma definida de poças passam a incluir os perfis verticais de quem passa perto. Em outras séries há garrafas. Copos. Em pé. No meio da foto. E na série Montauk, o horizonte estável – e horizontal – de céu em cima e mar embaixo tem seu movimento – uma ondinha embaixo e uma nuvem em cima – controlado por outro movimento, o do fotógrafo. Trata-se de um tríptico. Em diagese, é a presença do fotógrafo – estática, rígida e duradoura – na frente da paisagem o verdadeiro motivo da série.
Kossoy, por sua vez, põe muros em frente ao mar, falésias ou, antológico, o bico de um peixe espada, cabeça cortada, mirando o alto, junto a bitucas de cigarro jogadas do mesmo alto para onde seus olhos mortos se dirigem por toda a eternidade. Masculino e morto.
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.










































