Antes de Nascer o Mundo, de Mia Couto
Seguindo a linha dos escritores africanos que procuram de alguma forma semear reflexões sobre as guerras coloniais e seus efeitos nas sociedades contemporêneas, Mia Couto, moçambicano cuja produção ficcional contempla sete romances até o momento, vem afinando sua escrita e sua criatividade ao publicar, com uma periodicidade incrível, novas produções, entre poesias, romances, crônicas e contos.
Seu último romance, Antes de Nascer o Mundo (2009), publicado pela Companhia das Letras, mantém algumas das características que acompanham sua escrita há algum tempo como, por exemplo, a sugestividade dos nomes dos personagens, que nunca são apenas nomes, mas sim parte da personalidade, da história passada e do futuro dos mesmos (p.e. Dulcineusa, de Um Rio chamado tempo, uma casa chamada terra, Bartolomeu Sozinho, de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, e Dordalma, de Antes de Nascer o Mundo).
Por outro lado, outros elementos, que oferecem novos ares a escrita de Mia Couto, podem ser ressaltados nesse novo romance. A densidade poética conquistada pelo autor, bem como o aprofundamento do tema abordado, conferem ao texto mais que um simples encontro da atualidade com o passado histórico. Num tom suave, como quem recita uma poesia, o autor abrange assuntos tais como a violência contra as mulheres, as quais dedica um capítulo inteiro (“Os papéis da mulher”), e o impacto sofrido com a chegada da globalização num país desestruturado como Moçambique. Num tom crítico, mas poético e carregado de ironia (“Quem sabe os estrangeiros privados são os novos deuses?”), suas palavras oferecem às questões mais sérias e violentas a suavidade e a harmonia necessárias para denunciar uma série de situações intensas sem, no entanto, ter como resultado algo como um texto jornalístico, documental, objetivo e seco. É interessante destacar que cada capítulo é iniciado com um poema-epígrafe, na grande maioria das vezes de autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen e Hilda Hilst, que funcionam como uma introdução ao que está por vir, como uma espécie de mote, a que se seguem as estrofes.
Em Antes de Nascer o Mundo, passado e presente – tempos indissociáveis – se refletem nas feridas ainda abertas deixadas pelo passado colonial e nos inúmeros problemas sociais enfrentados pelo país. O futuro é um tempo ausente, uma vez que as elucubrações voltam-se para a dissolução de uma série de conflitos internos que caracterizam o passado dos personagens, todos fechados em si mesmos, isolados do mundo e da vida, e assim definidos: “Neste mundo existem os vivos e os mortos. E existimos nós, os que não temos viagem.” (p.54)
Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.































