Matisse
Matisse e uns contemporâneos franceses na Pinacoteca. Todo mundo baba o Matisse e picha os contemporâneos. E essa é a maior prova de que maluco baba um e picha outros porque um é famoso e os outros não (pelo menos entre nós).
E são iguaizinhos, a curadoria está certÃssima em pô-los juntos.
Não gosto de nenhum. E se tiver de, pincel apontado no peito, escolher algum, escolheria os contemporâneos.
Não vou falar do Matisse porque não tenho saco. Está bem, vou. A superfÃcie, a sinuosidade, o imobilismo das figuras e da, em falta de melhor palavra, composição – aqui entendida como sinônimo de repetição decorativa. Imobilismo necessário porque qualquer outra coisa, como tensão no desenho, e lá se ia aguarrás abaixo a frágil alegria que fez sua fortuna e fama. As cores. A facilidade, a serialização. O alvorecer do consumismo desenfreado. Ok. Chega.
Às obras.
Matisse faz colagens. Isto é, acrescenta camadas, acumula. Philippe Richard fura o suporte, isto é, retira camadas, suprime. Avançar ou recuar da superfÃcie do suporte à s vezes tem um elemento de tempo, de antes e depois. Não aqui. Como isso é feito em cadência e não em ritmo, fica só bonitinho. Richard, em uma de suas séries – os grandes painéis verticais com a incisão feita só na parte de cima -, apresenta um ritmo. É melhor que Matisse, portanto. Diferença entra ritmo e cadência, para quem não sabe: ritmo é sempre individual, mutável, e cadência é institucionalizada, estabilizada. Em mais uma das suas séries, Richard problematiza a superfÃcie, coisa que Matisse jamais fez. São setas que se colocam, impotentes em sua agressividade colorida, perpendiculares à superfÃcie toda-poderosa. Não que Matisse precisasse problematizar a superfÃcie. Imagine. Logo ele, que não problematizou nada. É que, para nossa vida de hoje, a problematização, seja lá do que for, é melhor companheira.
Cécile Bart é outra que problematiza a superfÃcie da cor, e de forma até mais radical que Richard. Ela estende fios. Não chega a ser um penetrável. Ou pelo menos o olhar duro da guardinha me impediu de por lá caminhar. Mas o olhar entrou. E os fios, de cores diversas, formam outras. Você sabe. Você já viu coisa parecida com vários modernistas. Ela também explicita o que em Matisse some, escondido que está na representação de seus temas. Em seu Oblique, Bart sobrepõe quadrados de cor. Como a cor é translúcida, mais uma vez aqui a sobreposição não indica temporalidade. Só exercÃcio de colorista mesmo, pois as cores sobrepostas formam outras. Mas, pelo menos, mostra o processo.
Mais um a olhar a superfÃcie. E esse foi o que eu mais gostei de todos. Pierre Mabille. Fez um grafite. Escreveu o que devia pintar: “un lacâ€; “un épis de maïsâ€. Tudo muito bucólico. E muito sacana, pois ao escrever e não pintar, ao escolher uma linguagem de representação – a escrita – que é muito mais distante de seu referente do que a imagem, ele critica o figurativo Matisse. E faz mais. Entre lagos, nenúfares e espigas de milho, acrescentou, rindo, um “um caroço de manga’. Assim mesmo em português. Adorei.
Matisse detestava ângulo reto e punha tudo em sinuosidades. Frédérique Lucien também. São sinuosidades repetitivas, as de um e outro. E, porque se repetem sobre toda a extensão, são imóveis.
E voltamos a Matisse. Há poucas obras significativas. A presença de suas maiores obras, porém, não mudaria em nada a junção vaca sagrada x contemporâneos desconhecidos. Mas dá raiva ver a economia que está por trás das escolhas. Obras francamente medÃocres, não fora a assinatura famosa, de seu começo de carreira, como a Paisagem de Bretanha, de 1887. E toma esboço em lápis e papel, ou em lito. E, sim, odaliscas retorcidas e passivas. E seus nus parados. E também as enormes cortinas de chuveiro, mais conhecidas por serigrafias da série Océanie. Com peixinho, conchinha, plantinha.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.









































