Variação para a mesmice
Inês Pedrosa, escritora portuguesa, lançou no Brasil A eternidade e o desejo. O livro fez algum sucesso e autora participou da última FLIP. A capa do livro o denuncia. Envolta nas fitas do Senhor do Bonfim, que anunciam seu conteúdo, apresenta como pano de fundo um dos altares barrocos das igrejas baianas. A cor de Exu predomina. Todos os elementos presentes na capa aponta para a necessidade de identificação realista do conteúdo que se desenvolverá.
Em certa medida, a narrativa, emoldurada pelas palavras do Padre Antônio Vieira, vai se cumprindo a partir da formulação que os autores, que intentam fazer falar a cidade, buscam. O livro de Ana Miranda – Boca do Inferno – cai na mesmíssima tentação, como o baino, por profissão, já havia caído. Em Jorge Amado, a cidade – presa da magia – se mostra na sua mitificação plena. Em Ana Miranda e Inês Pedrosa, a mistificação é apenas corruptela.
Se o narrador histórico-biográfico em Ana Miranda desvela um Gregório anacrônico, que, entre mulateiro e pervertido, constrói uma cidade idealizada, em Inês Pedrosa, a narradora, cega, passa da auto ironia a auto comiseração e aceitação, a partir de um amor idealizado; de sua condição e da perda da causticidade privilegiada que a cegueira jogara-lhe no colo. Ao fazer-se portadora da boa nova – a gravidez do final do livro – apaga literalmente o diálogo com Vieira e com a condição de excluído que o Padre alcançara na Bahia.
Os elementos estão todos dispostos na narrativa. A primeira viagem que empreende à Bahia se dá a partir de um amor arrebatador por Antônio, que lhe causará a cegueira quando tenta proteger o amante de um tiro. A confluência de um Ântônio por outro não chega a constituir um elemento narrativo de realce posto que o contraste se indetermina em uma causa óbvia.
Na segunda viagem apreendida à Bahia, Clara desce na cidade acompanhada de Sebastião, amigo por quem tem amizade e que lhe devota uma paixão tão arrebatadora quanto idealizada. A escolha do nome Sebastião está intrinsecamente ligado ao Rei menino que morre em Alcácer-Quibir e me parece que Inês Pedrosa busca realçar este fato, tanto na esterilidade deste amor quanto no anacronismo que o amor idealizado representa. A partir desta condenação amorosa esperava-se que A eternidade e o desejo buscasse definir o amor em termos libertários.
Clara, a partir do contato com uma mãe-de-santo, se envolve com um cineasta local que vai revelar a ela os segredos do amor. A reveleção, entretanto, mais causa pavor do que arrebatamento. Explica-se: Ao resolver romper com seu passado português, a narradora cai nas armadilhas do amor satisfeito, bem arumado e consolador, através do estancamento da aventura, isto é, da gravidez que denuncia a auto complacência da narradora e o nosso pavor.
Vítimas da mistificação, as narrativas sobre a cidade da Bahia, a de Ana Miranda, a de Inês Pedrosa ou a de seu Grão Senhor, desde logo colocam um problema para a formulação do literário – quando se querem realistas não dão contam do que é o fictício, pois afirmam-se sobretudo por uma visada sociológica e não ficcional; quando se querem fantasiosas, ou fantásticas, não dão conta do ficcional por estarem presas à mitificação da geografia narrativa, que é uma outra forma de dar conta da realidade ou mesmo de provocar no leitor o gosto pela mesmice.
Oswaldo Martins é escritor e poeta, formado em letras, mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e, atualmente, frequenta o doutorado em Literatura Comparada, na UFF.







































