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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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22/10/2009

Entrevista com Sérgio Pereira Couto

01. Com 150.000 exemplares vendidos, quase 30 livros publicados, você joga pelo ralo a noção geral de que autores nacionais não vendem bem. Qual a sua opinião sobre o nosso mercado editorial? Ter um currículo desses facilita na hora de negociar a próxima publicação?

Bem, vamos por partes. Os autores nacionais não vendem bem porque insistem em explorar áreas que não são de interesse do público em geral. Meus livros de pesquisa histórica, por exemplo, são todos calcados em assuntos que são atraentes ao público, que não possuem similares em português que sirvam de introdução ao assunto e, ao mesmo tempo, mostrem um lado simpático da História. Por exemplo, quem nunca quis ler um pouco sobre Piratas, Lendas Chinesas ou entender de maneira não acadêmica a história da civilização romana? História é muito mais do que uma enorme lista de nomes e datas, é também uma fonte inesgotável de tramas que, mais tarde, podem ser aproveitadas num romance de cunho histórico. Pessoas do mercado editorial já me falaram que cerca de sete em cada dez romances publicados tem um pé em algum fato ou lenda retirados da história da civilização humana. Então por que não fazer com que o público tenha acesso a esses assuntos de uma forma divertida? O nosso mercado editorial, infelizmente, ainda é regido por uma regra, que é a da “onda da vez”, ou seja, quando um assunto faz sucesso, exploram até que não venda mais. O que você, como autor, pode fazer é tentar sempre dar um ângulo novo para o assunto e aguardar que o editor caia na real e veja que aquilo não dá mais. OU arriscar, com uma boa lábia de vendedor, convencer sua editora a investir X mil reais num assunto que pode vender muito ou pouco, mas quando não corresponde às vendas, a culpa pela insistência na publicação cai invariavelmente no autor. E por fim afirmo: ter um currículo desses facilita sua aproximação com as editoras, mas não garante que você seja um best seller a ponto de vender qualquer coisa para o editor. Você passa pela avaliação normal que os demais passa. A vantagem é que veem sua proposta com mais atenção do que a dos demais, mas o processo de seleção é o mesmo, seja para livros de pesquisa ou para romances.

02. Está havendo um movimento discreto das nossas editoras para encontrar autores com capacidade de escrever Best-sellers, literatura de entretenimento de qualidade. Por que agora e por que só agora?

Há vários motivos para isso e a maioria deles envolve certos parâmetros de vendagem que apenas aqueles que mais estão centrados no mercado compreendem. O que posso afirmar, baseado no que observo nas listagens de mais vendidos, é que há muito da “onda da vez” envolvido nisso. Por exemplo, até o advento das obras de André Vianco, não havia muito interesse em vampiros, que era um assunto restrito apenas aos adoradores do gênero. Depois do Vianco e com o advento da série Crepúsculo, o assunto deixou as esferas dos adoradores e se tornou assunto até mesmo de yuppies. O que nos leva a crer que a “onda da vez” não é um fenômeno só de livros, pois envolve adaptações para outras mídias, principalmente quando se tornam filmes. Antigamente o livro dava origem ao filmes e era, depois disso, até ignorado e esquecido. Hoje é o filme que dá origem a novos leitores, que procuram o livro para ver como é a história original. Por isso as editoras, ao sentirem o potencial da tal série, investem em continuações e trilogias. E isso fascina o leitor, que gosta sempre de voltar aos cenários e personagens conhecidos, e até mesmo a esperar desfechos de tramas à lá novela das oito, como aconteceu com o final da série Harry Potter. Há fãs que simplesmente odiaram e outros que adoraram, mas ninguém deixou de fazer fila para comprar o último livro, o que deverá acontecer de novo quando chegar o filme. Ligados nessa tendência, as editoras nacionais querem encontrar um André Vianco que esteja fora da “sociedade vampírica”, por assim dizer, e ver outros segmentos, como policial, aventura e suspense, entre outros, encontrarem suas contrapartes. Quem sabe, quando sair o primeiro filme baseado numa obra do Vianco, vejamos esse movimento se intensificar ainda mais.

03. Sociedades Secretas está indo para a terceira edição. A trama envolve Maçonaria, Priorado de Sião, DeMolay, Rosacruz. Dá para dizer que há um parentesco com os livros de Dan Brown em questão de tema e estrutura?

Na verdade não. Dan Brown segue uma mesma estrutura de história e possui poucas variações em suas tramas. Meu livro começou como um livro de entrevistas, ou seja, foi baseado em entrevistas reais com representantes das sociedades mais “pop” e era originalmente um guia para orientar as pessoas interessadas em entrar nesse mundo. Foi escrito pelo menos dois anos antes de estrear O Código da Vinci. Foi ideia do editor romancear o livro para ser mais fácil de ser entendido pelas pessoas. A primeira edição saiu poucas semanas depois do livro de Brown e fez sucesso a ponto da editora pedir uma segunda edição com capítulos extras. Assim o leitor pode ter nada menos que 12 capítulos a mais, com sociedades secretas que só existem no exterior. Esta nova edição, a terceira, traz um novo visual e um novo projeto gráfico, mais a ver com o tema do que as anteriores. O tema é bem simples: dois interessados em conhecer as sociedades secretas se envolvem no mundo de conspirações que, invariavelmente, é evocado pelo próprio assunto. Porém, ao contrário dos livros de Brown, eles não procuram iluminação ou algo do gênero, mas sim esclarecimento e informação. Afinal, informação e poder nos dias de hoje e conhecer onde se põe o pé pode ser a diferença entre a vida e a morte. O livro não se passa num período de 24 horas como os de Brown, o que já facilita um pouco a compreensão. Mesmo assim é uma aventura que agradou ao público, principalmente por evocar as paisagens e cenários europeus tão característicos da história der maçons, templários e rosacruzes, afinal foi lá que a maioria dessas sociedades secretas nasceu.

04. Escrever livros de pesquisa mudou em alguma coisa o seu processo de escrita de romances?

Sem dúvida nenhuma que sim. Para a maioria dos escritores iniciantes é sentar e pensar numa história sem prestar atenção a detalhes da trama. A maioria se esquece que quanto mais sua trama mostrar detalhes que possam ser acessados por uma simples consulta no Google, mais interessado o leitor ficará. Principalmente quando se mexe com fatos históricos. Até mesmo ao contar lendas e mitos devemos ter esse cuidado. Ou teremos uma polêmica desnecessária como a de Brown quando afirmou sobre a existência do Priorado de Sião como sendo da época dos templários. Eu tive oportunidade de estar na Biblioteca Nacional de Paris e vi os tais documentos do tal Dossiê Secreto. Uma criança de sete anos num microcomputador faz algo mais crível do que os papéis que lá estão que, claramente, não são históricos, apenas estão depositados por lá. Sua credibilidade como autor depende do fato de que sua trama , caso se baseie em coisas reais, seja de fato bem pesquisada. Se você quer mesmo fazer uma ficção, então pelo menos mude o nome das coisas, assim sua criatividade pode ir longe. Ninguém jamais disse que Brown não podia ter trocado o Priorado de Sião por, digamos, o Priorado de Nazaré, que teria sido fundado por um grupo de monges que eram na verdade alienígenas do tipo grey. A partir do momento em que você se propõe a trabalhar coma realidade, você tem a obrigação de fazer uma pesquisa séria para enriquecer sua trama. É isso que procuro fazer o tempo todo. Meus livros de pesquisa já me deram muitas ideias para romances, alguns já escritos e que aguardam publicação, outros ainda por escrever.

05. Seu Investigação Criminal recebeu elogios de profissionais da área. Acha que programas como CSI abriram um novo campo para a literatura policial?

Sem dúvida que sim. Programas sobre investigação forense são sempre muito bem-vindos porque, ao contrários de histórias que mostram o “mundo cão”, elas possuem um glamour que desperta o interesse das pessoas e acoberta um pouco o aspecto criminoso e violento das ocorrências. Enquanto fazia minha pesquisa para esse esse livro, por exemplo, passei uma semana com os profissionais de vários setores da Polícia Técnico-Científica de São Paulo, que me contaram muitos casos e deram muitos exemplos práticos. Um deles falava sobre um estudante que era fissurado em todos os aspectos de CSI e que chegou lá louco para participar de uma autópsia. Chegou a recusar passar pomada tipo Vicky Vaporub no nariz para disfarçar o cheiro porque nunca tinha visto isso no seriado. Quando entrou na sala do IML não aguentou cinco minutos: teve que sair correndo para vomitar no corredor. Mais tarde ele comentou com os investigadores que era mais difícil do que aparentava na TV. O trabalho desses profissionais é admirável até mesmo pela falta de recursos. Quando escrevi o livro muitos chegaram a comentar comigo sobre esse aspecto. Afinal, o laboratório dos CSIs é tão cheio de tecnologia de ponta que nem dá para imaginar que, enquanto em laboratórios como o de Little Rock, no Arkansas (onde se passa minha história) eles usam lasers para determinar a trajetória de uma bala, aqui fazem a mesma cosia com barbantes. E com resultados tão bons quanto os dos norte-americanos. Eles aqui fazem milagres para resolver os crimes. Se voltarmos um pouco no tempo veremos que muto do que foi apresentado em histórias de Edgar Allan Poe, Sir Arthur Connan Doyle e até mesmo em Agatha Christie tem coisas que são aprendidas quando se estuda ciência forense. E esta, à parte os insetos e pedaços de cadáver e outras coisas nojentas, é um campo formidável e promissor.

06. E o próximo passo? Sérgio Pereira Couto encontrou seu nicho ou tudo é possível?

Sim, creio que a ficção policial é mais interessante e cheia de promessas do que o mistério das sociedades secretas. Mas trabalho com literatura de mistério, acima de tudo, e essa área permite que você explore tudo, do romance policial científico ao noir, do mistério histórico às sociedades secretas. Se for algo que renda uma boa história que possa até mesmo ser lida num dia só, estarei satisfeito, pois o leitor interessado gosta de ler sem parar. E isso é extremamente gratificante.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

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